Guerra dos Farrapos

A Guerra dos Farrapos foi um conflito que ocorreu no Rio Grande do Sul e Santa Catarina entre 1835 e 1845, tendo motivações políticas e econômicas.

Por Daniel Neves Silva

Pintura de Antonio Parreira "Proclamação da República Piratini", um dos eventos da Guerra dos Farrapos.

A Guerra dos Farrapos foi um conflito que aconteceu entre 1835 e 1845, iniciando-se na província do Rio Grande do Sul e depois alcançando a província de Santa Catarina. Foi uma revolta separatista, com os farrapos anunciando a fundação das repúblicas Rio-Grandense e Juliana.

Essa revolta foi motivada por insatisfações econômicas dos estancieiros, descontentes com a política fiscal do governo brasileiro em relação ao charque e em busca de garantir maior autonomia política para a província do Rio Grande do Sul. A revolta não teve sucesso, muito por intermédio de Luís Alves de Lima e Silva.

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Resumo sobre Guerra dos Farrapos

  • A Guerra dos Farrapos foi um conflito que ocorreu entre 1835 e 1845.

  • Esse conflito ocorreu no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

  • Foi uma revolta separatista com os farrapos anunciando a criação de duas novas repúblicas: Rio-Grandense e Juliana.

  • A revolta foi motivada por insatisfações econômicas e políticas dos estancieiros gaúchos.

  • Os farrapos foram derrotados e se renderam no Tratado do Poncho Verde.

O que foi a Guerra dos Farrapos?

A Guerra dos Farrapos foi um conflito que ocorreu no Brasil, entre os anos de 1835 e 1845, sendo caracterizado como uma das revoltas provinciais do Período Regencial. Essa revolta se iniciou na província do Rio Grande do Sul, alastrando-se para Santa Catarina. Tinha um caráter separatista, levando ao anúncio de duas repúblicas (Rio-Grandense e Juliana).

Esse conflito foi resultado de uma forte insatisfação das elites estancieiras do Rio Grande do Sul com o governo regencial por conta da política fiscal em relação ao principal produto produzido nas estâncias gaúchas: o charque. Além disso, havia insatisfações de ordem política, com os estancieiros defendendo maior autonomia política para a sua província.

O movimento teve líderes como Bento Gonçalves e se espalhou por parte da província. Os farrapos, como ficaram conhecidos os rebeldes, resistiram por dez anos, mas foram derrotados, assinando um acordo que ficou conhecido como Tratado do Poncho Verde. A derrota dos farrapos passou diretamente pela condução de Luís Alves de Lima e Silva.

Contexto histórico da Guerra dos Farrapos

A Guerra dos Farrapos, como mencionado, foi uma das revoltas que ocorreram no Período Regencial. Esse período se iniciou em 1831 por ocasião da abdicação de D. Pedro I ao trono brasileiro. Como o herdeiro, Pedro de Alcântara, era menor de idade, o país seria governado por regentes até que o herdeiro completasse 18 anos.

Foi um período de grande instabilidade política, com os grupos políticos disputando o poder de maneira ferrenha. Havia dois projetos políticos em disputa, sendo que um dos grupos apoiava a centralização do poder, e outro, a descentralização, com adoção do modelo federalista. Em 1834, o modelo federalista foi parcialmente aplicado com o Ato Adicional de 1834.

As províncias brasileiras ganharam autonomia política, o que acirrou as disputas políticas no interior das províncias. Essas disputas traziam instabilidade política e, quando a centralização retornou com força na política brasileira, a província gaúcha demonstrou forte insatisfação.

O que motivou a Guerra dos Farrapos?

Tela de Debret retrata uma charqueada, local de produção do charque, no Rio Grande do Sul.

A Guerra dos Farrapos tem suas causas entendidas no contexto político da província do Rio Grande do Sul após a independência do Brasil. Primeiramente, há de ser mencionada a centralização política que foi estabelecida no Brasil com a instalação da monarquia. A falta de autonomia política desagradava às elites do Rio Grande do Sul, pois, na província gaúcha, a circulação de ideias que defendiam liberdade, soberania e federalismo era considerável.

Junto desses ideais, estava a defesa da república, que foi ganhando força ao longo da década de 1830. Na questão da autonomia política, também se incluía a exigência dos gaúchos de nomear o próprio governante da província.

A insatisfação dos gaúchos não existia apenas no campo político, pois também estava presente no campo econômico. Antes de tudo, os gaúchos não concordavam com a determinação da Constituição de 1824 que dava atribuições ao Império de decidir quanto cada província pagaria de imposto, mas havia outra questão de mais impacto.

A elite do Rio Grande do Sul era formada por estancieiros e charqueadores, ambos produtores de gado. O principal produto produzido por eles era o charque (carne-seca), que era revendido para as províncias do Sudeste como alimento, sendo distribuído para os trabalhadores escravos. Acontece que, na década de 1830, havia muita pressão de São Paulo sobre o Rio Grande do Sul em virtude dos preços do charque.

Os gaúchos demandavam a redução do imposto do charque de 15% para 5% e ainda queriam o fim das limitações para a locomoção de gados do Uruguai para o Brasil (muitos dos estancieiros gaúchos tinham propriedades no Uruguai). A situação gerava ainda mais indignação nos gaúchos, porque o charque uruguaio e argentino tinha uma taxação considerada baixa, o que tornava o produto estrangeiro mais atrativo para o mercado nacional.

O governo imperial ainda decidiu implantar um imposto sobre a légua de pasto de cada estancieiro e ainda rejeitava auxiliar os estancieiros em momentos de emergência. Por fim, ainda havia altos impostos sobre o sal. Portanto, as insatisfações com a centralização política e com a alta carga tributária foram os grandes motivadores dos gaúchos em se rebelar contra o Império.

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Quem foram os farrapos?

Aqueles que se rebelaram durante a Guerra dos Farrapos contra o governo brasileiro receberam o nome de “farrapos”, sendo que, a princípio, esse termo tinha uma conotação pejorativa. No começo da década de 1830, os farrapos eram associados com os liberais no cenário político gaúcho. Relacionando com o conflito, esses farrapos foram, em grande parte, estancieiros e parte da elite econômica da província.

Líderes da Guerra dos Farrapos

O nome de Bento Gonçalves, sem dúvidas, é um dos mais significativos na Guerra dos Farrapos, sendo ele uma importante liderança no conflito. Outros nomes importantes foram o de David Canabarro, Antônio de Sousa Netto, Onofre Pires da Silveira Canto, Giuseppe Garibaldi, José de Almeida Corte Real, entre outros.

Onde foi a Guerra dos Farrapos?

A Guerra dos Farrapos aconteceu, primeiramente, no estado do Rio Grande do Sul, mas depois alcançou Santa Catarina. Como vimos, foi motivada por insatisfações econômicas e políticas dos estancieiros em relação ao governo regencial. Vejamos detalhes de como foi o andamento desse conflito.

Em setembro de 1835, os gaúchos decidiram rebelar-se contra o Império e a revolta se iniciou no dia 20 de setembro de 1835, quando os revoltosos se reuniram para atacar a cidade de Porto Alegre. Os gaúchos rebelados usavam roupas que eram chamadas de farrapos e, por isso, acabaram conhecidos como “farrapos”, um termo que originalmente tinha um significado pejorativo.

O início da revolta no Rio Grande do Sul não significou exatamente a separação do Rio Grande do Sul, uma vez que os farrapos só anunciaram a separação da província em 20 de setembro de 1836, quando foi anunciada a República Rio-Grandense na Câmara Municipal de Jaguarão. Os primeiros anos do conflito foram favoráveis aos gaúchos, o que permitiu que eles ampliassem os territórios sob o seu controle.

Em razão do sucesso dos farrapos e de sua causa, o movimento se espalhou para a província vizinha, Santa Catarina. Entre os anos de 1836 e 1839, a presença dos ideais farrapos cresceu consideravelmente, sobretudo na região litorânea onde se localizava a cidade de Laguna. Habitantes de Santa Catarina atuavam frequentemente como pontos de apoio para os farrapos.

Em julho de 1839, uma força armada vinda do Rio Grande do Sul por terra e por mar atacou e conquistou a cidade de Laguna. Após a cidade ser conquistada, foi formada a República Juliana, que era federada à República Rio-Grandense. Os farrapos até tentaram conquistar mais territórios em Santa Catarina, mas foram impedidos pelas tropas imperiais.

O domínio sobre Laguna durou poucos meses e logo a cidade foi reconquistada pelas tropas imperiais. Esse acontecimento, inclusive, coincidiu com um novo momento do conflito, pois, entre 1838 e 1839, as forças imperiais ganharam fôlego na guerra e começaram a derrotar progressivamente os farrapos.

Quem ganhou a Guerra dos Farrapos?

Uma série de fatores ajuda a explicar o enfraquecimento dos farrapos e o fortalecimento das tropas imperiais, o que se consolidou de fato a partir de 1842, quando o Barão de Caxias foi nomeado como comandante das armas da província do Rio Grande do Sul. O barão reorganizou as tropas e conquistou importantes vitórias no campo de batalha.

Os farrapos, por sua vez, passaram a enfrentar problemas financeiros, muitos causados pela ação do próprio Império. Além disso, os desentendimentos entre os próprios farrapos eram enormes e, passados anos da existência da República Rio-Grandense, nem uma Constituição tinha avançado.

Além disso, militarmente falando, os farrapos estavam em posição muito fragilizada e, já em 1842, por exemplo, não conseguiam sustentar grandes ataques contra as tropas imperiais. Por isso, nessa fase da guerra, eles já adotavam táticas de guerrilha e evitavam confrontos demorados contra as tropas imperiais.

O governo imperial venceu esse conflito, em 1845. O Barão de Caxias soube muito bem lidar com a situação no Rio Grande do Sul e, mesclando ataques militares com a diplomacia, levou as lideranças farrapas para a mesa de negociação. Um acordo entre farrapos e o Império demorou a ser costurado, mas, quando finalizado, resultou no Tratado do Poncho Verde, assinado no dia 1º de março de 1845.

O tratado colocou fim à Guerra dos Farrapos e deu fim à tentativa de separatismo. Os dois representantes que assinaram o tratado de cada lado foram o Barão de Caxias, pelo lado imperial, e David Canabarro, pelo lado dos farrapos. É importante salientar que, apesar de alguns termos serem favoráveis aos gaúchos, o Império não cumpriu todos.

Entre os termos que constavam no tratado, podemos citar:

  • perdão para os gaúchos que tinham se engajado na revolta;

  • os militares farrapos seriam integrados ao Exército imperial, mantendo as suas patentes;

  • os escravos envolvidos na luta seriam alforriados.

O governo ainda atendeu à grande demanda dos farrapos, taxando o charque estrangeiro em 25% e garantindo, assim, a competitividade da mercadoria produzida pelos gaúchos.

Consequências da Guerra dos Farrapos

Os farrapos foram derrotados pelo governo imperial e foram atendidos parcialmente com seus pedidos por meio do tratado que encerrou o conflito, garantindo a eles anistia e uma posição no Exército brasileiro. Isso, no entanto, não pacificou o Rio Grande do Sul, que seguiu sendo um foco de insatisfação e violência política.

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Exercícios sobre a Guerra dos Farrapos

Questão 01

(Consulplan – adaptado) Um dos momentos de maior convulsão política no Brasil ocorreu durante o Período Regencial (1831-1840), pois houve uma série de revoltas provinciais no país, refletindo a insatisfação de várias regiões contra o governo central. Uma das mais conhecidas foi a Revolta dos Farrapos, que ocorreu na província do Rio Grande do Sul e se estendeu de 1835 a 1845. Trata-se de uma das principais reivindicações dos revoltosos gaúchos na Revolta dos Farrapos:

a) Abolição imediata da escravidão em todas as províncias.

b) Introdução de um sistema republicano em todas as províncias.

c) Redução de impostos e maior autonomia administrativa para a província.

d) Independência total do Rio Grande do Sul e sua posterior união com o Uruguai e a Argentina.

e) Nenhuma das alternativas.

Resposta: Letra C.

A redução dos impostos cobrados sobre o charque e o desejo por maior autonomia política para a província do Rio Grande do Sul foram os dois grandes motivadores para o início da Guerra dos Farrapos, em 1835.

Questão 02

Durante o Período Regencial, o padre Diogo Antônio Feijó, de tendência liberal, foi eleito regente em 1835. Sua vitória foi apertada, ganhando com pouco mais da metade dos votos. Ele sabia que enfrentaria oposição em seu governo — e não se enganou. Revoltas explodiram por toda a parte do Império, envolvendo grupos diferentes e com objetivos variados. As revoltas envolveram os mais diferentes grupos sociais. Algumas revoltas pretendiam conseguir maior liberdade para suas províncias em relação ao poder centralizado no Rio de Janeiro; outras, a separação do Brasil e a criação de um novo país; outras, ainda, não tinham objetivo definido, mas demonstravam a insatisfação com a política que existia. Nenhuma delas, entretanto, pretendia mudar profundamente a estrutura da sociedade. E nenhuma propôs realmente acabar com a escravidão. Parecia que o Brasil estava a ponto de se dividir em vários países, como havia acontecido com a América espanhola na época das independências. Era preciso muita cautela para enfrentar tantos problemas políticos. E o governo do padre Feijó não conseguiu resolvê-los. Doente e desprestigiado, renunciou em 1837.

VAINFAS, Ronaldo et al. História.doc: 8 anos. São Paulo: Saraiva, 2018. p. 120-121.

Assinale a opção que indica corretamente os movimentos que fizeram parte das Revoltas Regenciais.

a) Balaiada, Sabinada e Contestado.

b) Confederação do Equador, Sabinada e Cabanagem.

c) Sabinada, Revolução Praieira e Confederação do Equador.

d) Contestado, Farroupilha e Revolução Praieira.

e) Cabanagem, Balaiada e Farroupilha.

Resposta: Letra E.

A Cabanagem, a Balaiada e a Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha) foram os movimentos que ocorreram durante o Período Regencial. Cada revolta dessa teve suas próprias motivações, misturando questões políticas e econômicas nos locais em que ocorreram.

Fontes

FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: Edusp, 2018.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloísa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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