Guerra Civil Síria

Você está aqui

A Guerra Civil Síria, conflito que acontece desde 2011, foi iniciada pelos protestos da Primavera Árabe. A reação violenta do governo de Bashar al-Assad levou ao surgimento de uma oposição armada. Estima-se que, até o momento, cerca de 600 mil pessoas morreram vítimas desse conflito.

Leia mais: Os atentados terroristas que chocaram os Estados Unidos no começo do século XXI

Causas da Guerra Civil Síria

A guerra civil na Síria é um desdobramento dos protestos que aconteceram no país a partir da Primavera Árabe, que chegou à Síria em janeiro de 2011. A Primavera Árabe é a forma como ficaram conhecidos os protestos populares que abalaram o norte da África e o Oriente Médio no final de 2010 e começo de 2011.

Desde 2011, Bashar al-Assad lidera as tropas sírias no combate aos rebeldes que lutam contra o seu governo na guerra civil.[1]
Desde 2011, Bashar al-Assad lidera as tropas sírias no combate aos rebeldes que lutam contra o seu governo na guerra civil.[1]

A Síria é governada de maneira ditatorial por Bashar al-Assad desde 2000 e pela família al-Assad desde a década de 1970. Os protestos na Síria contra o governo de Bashar al-Assad foram motivados pela onda de manifestações que se espalhou pelos países árabes e trouxe à tona a insatisfação da população com a forma como a família al-Assad governa o país.

Os primeiros protestos aconteceram em Deraa, cidade que fica no sul da Síria, e lá um acontecimento simbólico mobilizou o país contra Bashar al-Assad. Em março de 2011, estudantes foram presos depois de realizar uma pichação contra o presidente do país com uma mensagem que anunciava que ele seria o próximo governante a cair.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

A resposta do governo foi mobilizar a polícia secreta da Síria para prender os estudantes, que foram conduzidos para interrogatório, onde foram torturados. O caso chocou o país e mobilizou mais pessoas a protestarem contra Bashar al-Assad. Assim, grandes protestos foram realizados em cidades importantes, como Damasco e Aleppo.

Os manifestantes pediam reformas no governo, melhorias democráticas, instituição do pluripartidarismo, mais empregos, melhores condições de vida etc. A reação do governo foi violenta, e as forças policiais foram usadas para reprimir os protestantes. A repressão do governo motivou a população a organizar novos protestos, que se espalharam pelo país e continuaram sendo reprimidos.

A guerra começou quando os grupos de civis que atuavam nos protestos juntaram-se aos militares desertores e formaram milícias armadas. Essas milícias tinham como objetivo revidar a violência do governo e expulsar as tropas do exército sírio de suas cidades. A resposta de Bashar al-Assad foi impor mais repressão e, assim, a violência espalhou-se por todo o país.

Acesse também: Guerra do Golfo, a luta contra Saddam Hussein

Crescimento da Guerra Civil Síria

A guerra civil na Síria mobilizou inicialmente a oposição representada pelo Exército Livre da Síria (ELS) contra as tropas do governo sírio. O ELS surgiu por meio da mobilização de civis durante os protestos da Primavera Árabe. Ao se juntar com militares desertores, esse grupo armado foi formado e se oficializou em julho de 2011.

O ELS era considerado como um grupo de origem secular, ou seja, que não estava vinculado a nenhuma tendência religiosa e, portanto, representava a ala moderada da oposição. Essa posição do ELS mudou radicalmente ao longo do conflito, pois a origem secular foi abandonada e o grupo aderiu a ideais de fundamentalismo religioso.

Além disso, o foco de combate do ELS foi transformado radicalmente. No começo da guerra civil na Síria, eles tinham como grande objetivo derrubar o governo de Bashar al-Assad e estabelecer um governo democrático. Com o passar dos anos, o ELS passou a ter como foco o combate aos curdos no norte da Síria, sob a alegação de que eles queriam fragmentar o território sírio. Essa luta do ELS contra os curdos é um reflexo do apoio que o ELS recebe da Turquia nesse conflito.

À medida que a guerra avançou, outros grupos rebeldes foram surgindo, muitos de orientação extremista. O maior desses grupos rebeldes extremistas é o Hayat Tahrir al-Sham, anteriormente conhecido como Frente Fateh al-Sham e Frente Al-Nusra, de orientação sunita. Esse grupo, até julho de 2016, era o braço armado da Al-Qaeda na Síria.

A desvinculação da Hayat Tahrir al-Sham da Al-Qaeda — acredita-se — teria acontecido pacificamente. Entretanto, sabemos que isso não é verdade, porque, tempos depois, o Hayat Tahrir al-Sham entrou em conflito contra o Hurras al-Din, grupo fundamentalista que surgiu em fevereiro de 2018 e que é considerado o atual representante da Al-Qaeda na Síria.

A partir de 2014, aproveitando-se da fragilidade da Síria, o antigo braço iraquiano da Al-Qaeda, conhecido como Estado Islâmico (EI), invadiu o país e conquistou parte do território. A atuação do Estado Islâmico levou à fundação de um califado na região. Califado é uma espécie de reino islâmico que impõe a sharia (lei islâmica).

O Estado Islâmico buscava a autonomia total sobre a Síria e, por isso, era inimigo de todas as forças que estavam em luta no país. Essa organização terrorista foi uma ameaça real para o governo de Bashar al-Assad e para outros grupos na Síria, o que levou a uma grande mobilização interna e internacional contra o avanço dessa organização.

Países como Rússia e Estados Unidos mobilizaram grandes recursos para lutar contra o Estado Islâmico, assim como o governo sírio. Os grupos rebeldes, como o Exército Livre da Síria, também lutaram contra o Estado Islâmico. A mobilização contra o EI deu resultado e, atualmente, ele já não controla mais territórios na Síria, embora ainda seja visto como ameaça por sua atuação internacional.

A violência trazida pelo Estado Islâmico levou os curdos sírios a se mobilizarem em autodefesa. Assim, surgiu a Unidade de Proteção Popular do Curdistão Sírio. A YPG (na sigla em curdo) pertence ao Curdistão Sírio, área do norte e nordeste da Síria que está sob controle dos curdos. A região também é conhecida como Federação Democrática do Norte da Síria.

Os curdos são acusados de defenderem o separatismo, mas negam isso e, até o presente momento, não tomaram nenhuma ação separatista. A YPG, que garantia a proteção dos curdos contra o Estado Islâmico, também defende os curdos sírios dos ataques de tropas da Turquia. Os turcos denunciam os curdos de fazerem parte de uma organização terrorista.

Observadores internacionais veem os ataques que os curdos sofrem dos turcos como parte de uma estratégia da Turquia. Os turcos temem que o fortalecimento dos curdos na Síria repercuta na minoria curda que habita o território turco. Os turcos reforçaram seus ataques depois que os Estados Unidos retiraram seu apoio aos curdos em 2019.

Mobilização estrangeira na Guerra Civil Síria

Aleppo, a cidade que mais sofreu impactos com a Guerra Civil Síria.
Aleppo, a cidade que mais sofreu impactos com a Guerra Civil Síria.

A mobilização estrangeira na guerra da Síria acontece de maneira direta e indireta, pois vários países apoiam distintos grupos. A mobilização americana, a princípio, ocorreu contra o Estado Islâmico. Nesse momento, os Estados Unidos bombardeavam posições controladas pelo grupo extremista para enfraquecê-lo.

Os Estados Unidos também forneceram apoio para grupos rebeldes, como o Exército Livre da Síria e a Unidade de Proteção Popular. Entretanto, no decorrer do conflito, os norte-americanos retiraram seu apoio ao ELS, que se aliou aos turcos; e ao YPG, que se aliou com o governo sírio e com a Rússia, para evitar ser massacrado pelo turcos, que intensificaram seus ataques contra os curdos em 2019.

A Rússia, por sua vez, garante apoio ao governo de Bashar al-Assad e, até o momento, que a Síria não sofra sanções internacionais. Além disso, a Rússia aderiu ao conflito a partir de 2015 para reforçar a luta do governo sírio contra o Estado Islâmico e contra os rebeldes. O apoio dado pela Rússia foi fundamental para sustentar Bashar al-Assad no poder em um momento delicado.

O Irã também apoia o governo sírio, principalmente para evitar que milícias sunitas assumam o poder na Síria, uma vez que, se isso acontecesse, os interesses iranianos no Oriente Médio seriam severamente ameaçados, pois a Síria se tornaria uma ameaça ao Hezbollah, organização xiita que fica sediada no Líbano, país vizinho da Síria. O Irã envia tropas, armas e dinheiro para Bashar al-Assad.

Acesse também: Como surgiu o islamismo?

Quais foram os impactos da Guerra Civil Síria?

A Guerra Civil Síria tem mais de 10 anos de duração, e a extensão desse conflito tem deixado o país em ruínas. A infraestrutura básica do país, como estradas, rede de hospitais, escolas, entre outros, foi destruída. Isso afeta diretamente a economia e a qualidade de vida da população síria. Milhões de pessoas ficaram sem acesso a um sistema de saúde e milhões de crianças abandonaram as escolas, prejudicando o seu futuro.

Além da destruição material, é importante mencionar o empobrecimento da população, que, em um país arrasado pela guerra, viu sua situação de vida se degradar cada vez mais. Além disso, mais da metade da população do país hoje depende de ajuda humanitária para sobreviver, pois itens básicos à sobrevivência, como alimentos, estão em falta.

A guerra também causou milhares de mortos e fala-se que, até o final de 2020, quase 600 mil pessoas morreram. Além disso, outras 13 milhões de pessoas abandonaram suas casas para garantir sua sobrevivência. Mais da metade delas migraram de região na própria Síria, e mais de 5 milhões de pessoas fugiram do país.

Não se sabe quando a guerra terá fim, uma vez que as intervenções estrangeiras seguem alimentando o conflito. Além disso, nenhum dos lados envolvidos parece disposto a baixar armas, o que deixa a Síria com o seu futuro bastante ameaçado.

Créditos da imagem:

[1] John Wreford e Shutterstock

Por Daniel Neves Silva

Curtidas

0

Compartilhe:
Artigos Relacionados