Baixa Idade Média

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A Baixa Idade Média é um dos períodos que formam a Idade Média e refere-se aos acontecimentos do século XI ao século XV. Trata-se de um período de grandes mudanças na Europa medieval, pois o feudalismo (no seu sentido clássico) começou a enfraquecer devido ao fortalecimento do comércio, ao renascimento das cidades europeias e ao surgimento dos Estados nacionais.

Durante a Baixa Idade Média, a Europa presenciou uma melhoria tecnológica que se refletiu nas técnicas agrícolas, por exemplo. O enfraquecimento do feudalismo possibilitou o surgimento de novas práticas políticas, e monarquias consolidaram-se com o Estado nacional. Por fim, a Baixa Idade Média foi um período de guerras, no qual as Cruzadas destacaram-se.

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Feudalismo

Segundo a periodização estipulada pelos historiadores, o feudalismo esteve em seu auge durante a Baixa Idade Média. Ele não foi apenas um sistema econômico que estruturou o modo de produção dos europeus nesse período mas esteve relacionado com uma série de outras áreas.

Sendo assim, a divisão social e sua condição estamental, a relação vassálica, que faz parte do aspecto político existente entre o rei e seus nobres, e até mesmo a ideologia vigente naquele período, e utilizada principalmente pela Igreja para justificar seus privilégios e a condição desigual daquela sociedade, também eram parte do feudalismo.

Nesse sistema, o aspecto geralmente mais analisado, sem dúvida, é o econômico. Dentro dele, o feudo era um dos locais de maior importância. O feudo era o nome que se dava às terras dos nobres, e nelas continham as terras que seriam cultivadas, as instalações que faziam parte do trabalho dos camponeses, as moradias dos campos e um bosque no qual se caçava, tirava-se lenha e colhia-se frutos.

Os feudos eram terras que os nobres poderiam possuir por riqueza da própria família, não obstante, eram obtidos principalmente por meio da relação de vassalagem. A Europa durante a Baixa Idade Média esteve no auge do processo de enclausuramento ou encastelamento dos feudos, nos qual eles se fortificavam em grandes castelos.

A construção de castelos foi uma resposta das populações da Europa Ocidental às invasões que o continente começou a sofrer, a partir do século IX, de vikings e húngaros. Para proteger-se, a saída encontrada por essa parte do continente foi realizar a construção de moradias fortificadas. Assim, quando necessário, esses castelos abrigavam a população instalada no feudo.

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Nesses locais, os camponeses instalavam-se nas terras com a autorização do senhor feudal e tinham de sobreviver por meio de seu trabalho. Para poder viver sob a proteção do seu senhor e utilizar suas terras e instalações, o camponês era obrigado a pagar uma série de impostos. Alguns desses impostos eram a corveia, a talha e a banalidade.

No campo político, o feudalismo manifestava-se por meio da relação de vassalagem que criava uma relação de fidelidade e dependência entre reis e nobres. Essa relação surgiu por volta do século VIII, durante o Império Carolíngio, e foi muito comum na Europa até meados da Baixa Idade Média. Nela, rei e nobre realizavam um acordo no qual aquele fornecia um feudo ao este, que, em troca, ajudava na administração do reino e enviava soldados na época de guerra.

Na sociedade, a Europa feudal era estamental, isto é, dividida em classes com pouca mobilidade social. Os grupos vigentes eram: camponeses, que deveriam sobreviver do seu trabalho e eram obrigados a viver de pesados impostos; o clero, composto por membros da Igreja Católica; e os nobres, elite social da Idade Média, classe privilegiada descendente dos ricos romanos ou de pessoas que haviam ascendido, em algum momento, na Alta Idade Média.

O historiador Jacques Le Goff afirma, no entanto, que, a partir do século XIII, essa divisão da sociedade deixou de existir. Os próprios registros da época apontam que ela foi substituída por uma nova organização social, e Le Goff reitera que ela foi resultado da consolidação do Estado nacional que aconteceu nesse período|1|.

Com o crescimento das cidades, fenômeno que se deu a partir do século XII, esses lugares começaram a contar com um novo grupo social significativo: o burguês, habitante do burgo — anexo da cidade surgido com a instalação de pequenos comerciantes. O final da Idade Média é um período de muitas mudanças que abriram caminho para a formação de uma nova sociedade, com uma nova organização política e econômica.

Acesse também: Como os vikings enxergavam a guerra na Europa medieval

Crescimento populacional

O renascimento comercial foi uma das grandes marcas da Europa durante a Baixa Idade Média. [1]
O aumento populacional permitiu o crescimento das cidades na Baixa Idade Média.

A Baixa Idade Média é um período de inovações técnicas e de crescimento populacional. O aumento da população na Europa era um processo em curso desde o século VIII, mas que se intensificou a partir do século XI. Uma série de fatores explica esse crescimento populacional, e o historiador Hilário Franco Junior estipula quatro deles|2|:

  • O recuo de epidemias a partir do século VIII;

  • O caráter concentrado das guerras medievais, uma vez que ficavam restritas a pequenos locais e continham poucos soldados;

  • A melhora no clima na Baixa Idade Média, marcado por um aumento na temperatura;

  • Inovações técnicas que garantiram mais produtividade da agricultura.

O aumento populacional foi significativo (para os padrões medievais), e, segundo estatísticas trazidas por Le Goff, a população na Europa saltou de 22,6 milhões, no ano 600, para 54,4 milhões, em 1348|3|. Hilário Franco Junior sugere dados um pouco diferentes. Para ele, em 600, a população europeia era de 16,3 milhões e saltou para 50,35 milhões, em 1300|4|.

Um dos fatores diretamente relacionados a isso, como citado, foi o aumento na produção agrícola, e isso só foi possível graças à melhoria nas técnicas agrícolas que permitiu um melhor rendimento da agricultura como um todo. As novas técnicas estão relacionadas com a melhoria no arado do solo, com o uso de charrua e aiveca de ferro, e com a implantação de um sistema de rotação trienal.

O resultado foi que a produtividade melhorou consideravelmente, e o rendimento passou de um ou dois grãos por semente plantada para três ou quatro grãos por semente plantada. Além disso, houve um aumento na quantidade de terras cultivadas. Isso se deu porque houve a derrubada de florestas e o secamento de regiões pantanosas, que antes eram impossíveis de ser cultivadas.

Renascimento comercial e urbano

O renascimento comercial foi uma das grandes marcas da Europa durante a Baixa Idade Média. [1]
O renascimento comercial foi uma das grandes marcas da Europa durante a Baixa Idade Média. [1]

A Baixa Idade Média presenciou também um considerável renascimento do comércio e das cidades. No primeiro caso, o impulso deu-se quando a Europa passou a contar com um excedente agrícola que ampliou o rol de mercadorias dos comerciantes e pôde ser comercializado com mercadorias de luxo.

O renascimento do comércio marcou o surgimento de dois grandes polos comerciais na Europa: o dos italianos, no sul, e o dos alemães, na Liga Hanseática, no norte. Um ponto de encontro entre esses dois polos acontecia na feira de Champagne, na França. O renascimento do comércio é resultado, também e em grande parte, da abertura do Oriente, que se deu com o início das Cruzadas, no final do século XI.

No segundo caso, trata-se de um acontecimento de extrema importância, uma vez que suscitou mudanças profundas na organização social da Europa. O desenvolvimento urbano tem relação com o aumento populacional e aconteceu quando camponeses, para fugirem da servidão, começaram a mudar-se para as cidades, mas também contou com nobres despossuídos que passaram a investir em negócios nelas.

A respeito desse renascimento comercial e crescimento urbano na Europa medieval, sugerimos as seguintes leituras: Renascimento comercial e Renascimento urbano.

Crise do século XIV

O surto de peste bubônica, conhecida como Peste Negra, resultou na morte de 1/3 da população europeia no século XIV.
O surto de peste bubônica, conhecida como Peste Negra, resultou na morte de 1/3 da população europeia no século XIV.

A Europa enfrentou uma grande crise antes da Idade Média acabar. Essa crise aconteceu no século XIV e antecipou as mudanças que afetaram as estruturas da Europa Ocidental. O grande evento desse período de instabilidade foi a Peste Negra.

Um ponto de partida importante é que o século XIV seguiu na contramão dos séculos anteriores e ficou marcado por colheitas muito ruins. Elas aconteceram, principalmente, no período 1315-1322 e foram causadas por um resfriamento do clima e por chuvas muito fortes. Isso resultou em safras perdidas e em fome, quando o preço dos alimentos disparou, ficando impossível os mais pobres comprá-los.

Houve também revoltas de camponeses e de trabalhadores urbanos. No primeiro caso, Le Goff sugere que as revoltas foram realizadas por camponeses ricos que estavam perdendo seus privilégios, e, no caso das cidades, elas aconteceram pelo aumento considerável do desemprego e do número de miseráveis.

Acesse também: Como funcionava o tribunal da Santa Inquisição, criado no século XIII

O grande acontecimento do século XIV, no entanto, foi a Peste Negra. Em 1348, iniciou-se um surto de peste bubônica, doença causada pelas pulgas dos ratos que se espalhou rapidamente por toda a Europa. Le Goff sugeriu que a doença foi levada para o continente por navios genoveses que estavam instalados em Caffa, colônia de Gênova, na Crimeia.

Essa cidade teve um surto de peste bubônica causado pelos mongóis, que tentavam conquistá-la desde 1343. Sem sucesso, eles jogaram, em Caffa, pedaços de cadáveres contaminados com a doença. Os comerciantes genoveses, em fuga, voltaram para Gênova e levaram a doença para a Europa em seus navios.

A Peste Negra atuou na Europa de maneira epidêmica, contaminando em uma velocidade impressionante e atuando em ciclos curtos que retornavam com frequência. A Peste Negra resultou na morte de 1/3 da população europeia.

Notas

|1| LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016. p. 254-255.

|2| JUNIOR, Hilário Franco. A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006. p. 26-27.

|3| LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016. p. 56.

|4| JUNIOR, Hilário Franco. A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006. p. 24.

Créditos da imagem

[1] PatriciaGR e Shutterstock

Por Daniel Neves Silva

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