Cruzadas

As Cruzadas foram campanhas militares da Igreja Católica que visavam à reconquista dos territórios dominados pelos muçulmanos, especialmente Jerusalém. Ocorreram entre os séculos XI e XIII.

Por Cassio Remus de Paula

Exército cristão tomando Jerusalém durante a primeira Cruzada.
Das oito Cruzadas oficiais, que visavam tomar Jerusalém, a única bem-sucedida foi a primeira, representada na pintura.
Crédito da Imagem: Wikimedia Commons
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As Cruzadas foram campanhas promovidas pela Igreja Católica com o objetivo de reconquistar os territórios tomados pelos muçulmanos, principalmente a cidade de Jerusalém, com o apoio dos reinos cristãos europeus. A partir do século VII, os muçulmanos passaram a dominar a cidade de Jerusalém, que até os dias de hoje possui significado sagrado para as três religiões abraâmicas: o islamismo, o cristianismo e o judaísmo. Ao final do século XI, o papa Urbano II atendeu ao pedido de ajuda dos cristãos ortodoxos bizantinos ao conceder apoio militar para barrar o avanço dos turcos seljúcidas, que haviam conquistado diversos territórios no Oriente Médio. As Cruzadas perduraram até o século XIII e contribuíram para com a crise do feudalismo, além de provocar uma guerra religiosa cujas ideologias ecoam com violência até os dias atuais.

Leia também: O que foi o Tribunal da Santa Inquisição na Idade Média?

Resumo sobre as cruzadas

  • As Cruzadas foram campanhas organizadas pela Igreja Católica e reinos cristãos, entre os séculos XI e XIII.
  • Seu objetivo era reconquistar os territórios dominados pelos muçulmanos, especialmente Jerusalém, cidade que tem profundo significado para cristãos, muçulmanos e judeus.
  • Surgiram quando o papa Urbano II, no Concílio de Clermont, decretou apoio aos bizantinos contra as incursões turco-otomanas.
  • Apesar do pretexto religioso, os objetivos das Cruzadas eram econômicos, políticos e sociais.
  • As Cruzadas foram divididas em oito campanhas oficiais e ao menos duas de caráter popular.
  • Das cerca de dez missões, a única realmente bem-sucedida foi a primeira (1096-1099), que resultou na retomada provisória de Jerusalém.
  • Três grupos fizeram parte das Cruzadas junto às tropas vindas da Europa: a Ordem dos Hospitalários e as recém-criadas Ordem dos Templários e Ordem Teutônica.
  • As forças muçulmanas se unificaram, em grande parte, para combater a influência cristã inicialmente consolidada na Palestina.
  • A principal liderança islâmica foi conduzida por Saladino, sultão do Império Aiúbida.
  • A maior e mais importante campanha cristã foi a Terceira Cruzada, que a princípio pareceu favorecer os cruzados, mas acabou fracassando diante da liderança de Saladino.
  • Além das Cruzadas militares, houve campanhas conduzidas por civis que se mostraram profundamente desastrosas, como a Cruzada dos Mendigos e a Cruzada das Crianças.
  • Apesar de as Cruzadas terem promovido o fortalecimento das monarquias centralizadas na Europa, no geral, elas foram um fracasso.
  • O último reduto cristão na Palestina foi em Acre, que foi dissolvido em 1291 após uma incursão dos egípcios mamelucos.
  • As Cruzadas resultaram em grandes consequências para a Idade Média, como a crise do feudalismo, o intercâmbio cultural e um saldo de milhões de vítimas civis e militares.

 Videoaula sobre as Cruzadas

O que foram as Cruzadas?

As Cruzadas foram campanhas militares ou populares que tinham como objetivo a reconquista dos territórios dominados pelos muçulmanos, especialmente a cidade palestina de Jerusalém.  Apesar do pretexto religioso, as Cruzadas tinham significados muito mais particulares. A Igreja Católica e os reinos envolvidos buscavam satisfazer interesses políticos, sociais e principalmente econômicos, já que os territórios dominados pelo avanço islâmico compreendiam importantes rotas comerciais que conectavam o Ocidente ao Oriente.

Os enviados para essas campanhas, oriundos de diversos reinos cristãos da Europa, dariam origem a novos grupos, como a Ordem dos Templários, responsável pelo combate, e a Ordem Teutônica, uma elite da cavalaria alemã que seria usada para fins de interesse do Estado germânico, além de contar com a forte presença da Ordem dos Hospitalários, fundada anteriormente às Cruzadas, que se responsabilizava pela assistência médica e por missões militares.

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As promessas feitas pelos financiadores dessas campanhas aos enviados para a guerra envolviam tanto recompensas espirituais e imateriais — como a expiação pelos pecados ou, no caso dos combatentes nobres, a elevação da honra como cavaleiros — quanto recompensas materiais, refletidas nas doações de terras oriundas das conquistas e no direito de exercer a pilhagem por onde avançassem.

Do século XI ao XIII, os cruzados tentaram reconquistar suas terras sagradas principalmente sobre o Oriente Médio, realizando massacres generalizados contra povos muçulmanos e judeus (uma violência que, aliás, apenas acirraria o atrito entre as religiões com o passar do tempo). No entanto, apesar de a princípio as Cruzadas terem atingido parcialmente os seus objetivos, com o tempo, elas se tornaram uma sucessão de falhas, concluindo-se com o domínio e o fortalecimento dos povos muçulmanos.

Veja também: Qual a origem do conflito entre Israel e Palestina?

Contexto histórico das Cruzadas

No decorrer do século VII, o Oriente Médio passou a integrar o Califado Ortodoxo, ou Rashidun. O Rashidun foi o primeiro califado a suceder o fundador do islamismo, Maomé, e veio a ser liderado por uma sucessão de quatro califas entre os anos 632 e 661. Pouco tempo após sua fundação, o califado obteve inúmeras conquistas sobre os territórios bizantinos no Oriente Médio. Em 636, o comandante Abu Ubayda ibn al-Jarrah do Rashidun alcançou a cidade de Jerusalém, considerada sagrada para as três religiões abraâmicas (o islamismo, o cristianismo e o judaísmo), e a cercou. Naquele contexto, a cidade era governada pelo patriarca bizantino Sofrônio, que ciente das irrefreáveis conquistas do Império Islâmico sobre o Oriente Médio, aceitou diplomaticamente a rendição da cidade durante seis meses de negociação direta com o califa Umar ibn al-Khattab.

Em 637, o cerco foi dissolvido, e a cidade, tomada pelos muçulmanos. O califa Umar concordou com os termos de Sofrônio de que os cristãos da cidade poderiam exercer sua fé livremente e não teriam suas propriedades e símbolos destruídos (o que não valia para os judeus, que eram expulsos da cidade desde o domínio bizantino; entre as exigências de Sofrônio, requisitou-se esta prática, cuja continuidade foi garantida por Umar).

No decorrer do século seguinte, o moral dos líderes cristãos foi novamente abalado: durante a década de 710, o Califado Omíada, do norte africano, derrotou o Reino Visigótico da Hispânia. A Península Ibérica passou a ser dominada pelos mouros, oriundos da miscigenação berbere e árabe, e seu território foi renomeado Al-Andalus (uma adaptação do gótico para o árabe de “lote de terra”), com capital em Córdova. A Península Ibérica só seria totalmente reconquistada pelos europeus em 1492, após a queda do último reduto dos muçulmanos na região de Granada.

Mapa com territórios ocupados pelos muçulmanos, uma das causas das Cruzadas.
Expansão islâmica desde Maomé (622) até o Califado Omíada (750). 

Acuados perante as incursões muçulmanas, a Igreja Católica e os reinos cristãos se reuniram no Concílio de Clermont, em 1095. Conduzido pelo papa Urbano II, o concílio previa o apelo dos aliados cristãos para proteger os peregrinos no Oriente e recuperar Jerusalém. A partir desta decisão, os planos para reconquistar a influência cristã anterior à ascensão do islamismo se propagaram e se tornaram o principal ideal das Cruzadas.

Quais os objetivos das Cruzadas?

As Cruzadas tinham como objetivo principal a retomada da cidade de Jerusalém e outros lugares de interesse da Igreja Católica, sob o pretexto de proteger a fé cristã.

Domo da Rocha e cúpula de uma igreja cristã em Jerusalém, cidade almejada nas Cruzadas.
A conquista da cidade palestina de Jerusalém era o objetivo principal das Cruzadas.

No entanto, as razões por trás deste pretexto eram mais profundas. Uma dessas razões era econômica: o domínio muçulmano sobre o Oriente Médio impactava o fluxo comercial no Mediterrâneo e ameaçava o interesse dos mercados europeus.

Igualmente importante era a razão política: o moral do papa e da Igreja estava sob ameaça perante o avanço dos islâmicos, que rapidamente foram taxados como falsos religiosos e arriscavam a soberania espiritual do catolicismo sobre grande parte da Europa Ocidental. Junto desse motivo, estimulava-se o fortalecimento dos laços com a nobreza, já que a Igreja passava a incentivar os cavaleiros a conquistarem territórios para tomá-los como propriedade.

Portanto, apesar de o principal pretexto para a prática das Cruzadas terem sido a religião, ao mesmo tempo, objetivava-se a influência da Igreja Católica sobre razões econômicas, políticas e sociais.

Quem lutou nas Cruzadas?

As Cruzadas foram travadas entre exércitos com ideologias religiosas. Os responsáveis pelas campanhas cruzadas eram formados por uma coalizão da Igreja Católica e reinos cristãos, que atenderam a um pedido de socorro aos bizantinos, enquanto os defensores das terras almejadas pelos cruzados eram compostos por uma multiplicidade de grupos que compartilhavam da mesma crença islâmica (apesar de muitos se oporem entre si com a cisão entre xiitas e sunitas).

→ Líderes das Cruzadas

Por se tratar de uma sucessão de conflitos em larga escala, ou seja, abranger quase duzentos anos de campanhas, os personagens centrais das Cruzadas variaram com o tempo. No entanto, é possível apontar os líderes mais notórios de ambos os lados, principalmente naqueles envolvidos na Terceira Cruzada, que não por acaso, foi a maior e mais significativa de todas. Entre os cristãos, encontravam-se os reis:

Vale também citar a liderança do rei Frederico II do Sacro Império, que apenas por meio da diplomacia, quase venceu os aiúbidas do sultão Al-Kamil.

Ricardo I ou Ricardo Coração de Leão, líder dos cristãos nas Cruzadas, representado em pintura.
Ricardo I ou Ricardo Coração de Leão, líder dos cristãos nas Cruzadas, representado em pintura.

O líder dos muçulmanos em defesa dos territórios sagrados, no contexto da Terceira Cruzada, foi o sultão Saladino. Líder do Império Aiúbida, Saladino subjugou a infantaria pesada das forças cristãs por meio de seu cerco consistente e impedimento de provisões (especialmente a água), além das rápidas incursões de sua cavalaria ligeira.

O rei Saladino, líder dos muçulmanos na Terceira Cruzada, representado em um manuscrito do século XV.
O rei Saladino, líder dos muçulmanos na Terceira Cruzada, representado em um manuscrito do século XV.

→ Ordens dos Templários, dos Hospitalários e Teutônica

Na luta corpo a corpo, quem executava as missões cruzadas eram os exércitos oficiais dos reinados envolvidos, sob a cooperação dos “guerreiros de Deus” da Ordem dos Templários, fundada em 1119 por Hugo de Payns. Esses combatentes, chamados de templários, eram inicialmente soldados ideologicamente comprometidos com o cristianismo e faziam voto de pobreza antes de partirem para as missões, com pouca ou nenhuma proteção (por isso foram apelidados de “pobres cavaleiros de Cristo”).

Porém, no decorrer das primeiras Cruzadas, a Ordem dos Templários apenas enriqueceu (em grande parte devido às pilhagens) e passou a se tornar um grupo cada vez ostensivo, utilizando armaduras, armamentos e cavalaria da melhor qualidade. O enriquecimento dos templários foi tanto, que se tornou uma instituição praticamente independente de seus benfeitores, algo que mais tarde traria consequências desfavoráveis a seus líderes: a pressão do rei francês Filipe IV sobre o papa Clemente V permitiu que os cavaleiros templários fossem perseguidos, e grande parte de seus líderes, executados na fogueira.

Pintura representando exército de cavaleiros templários lutando nas Cruzadas.
Os soldados templários eram responsáveis pelo combate corpo a corpo nas Cruzadas.[1]

Outro grupo envolvido nas Cruzadas foi a Ordem dos Hospitalários, ou Ordem de São João, que surgiu da fundação de um hospital de assistência a peregrinos cristãos em Jerusalém, ainda antes da Primeira Cruzada (durante a década de 1070). Com o tempo, os hospitalários passaram a se armar sob o pretexto de proteger os enfermos e se tornaram uma instituição militar, tomando frente a diversas incursões oficiais contra os muçulmanos.

A Ordem Teutônica também esteve presente nas Cruzadas. Surgida após a Terceira Cruzada na cidade de Acre, tratava-se de uma entidade médica e militar de cavaleiros alemães que defendiam os interesses do Império Sacro e da Igreja Católica. Esta elite germânica, além de participar das cruzadas ao lado dos templários e hospitalários, foi utilizada como recurso de combate especialmente em missões no Báltico e na Prússia.

→ Exércitos muçulmanos

Os povos defensores das “terras sagradas”, genericamente referidos pelos europeus como sarracenos, eram formados por uma rede complexa de povos, etnias e nações. Entre eles, havia árabes, turcos seljúcidas, curdos, mamelucos, sudaneses, beduínos, berberes, turcomanos e até mesmo mercenários vindos da Europa Oriental. Enquanto, no contexto da Primeira Cruzada, os principais inimigos combatidos pelos cristãos eram os turcos seljúcidas, quem encerrou as atividades das forças cruzadas, sitiadas em Acre em 1291, foram os mamelucos vindos do Egito.

Quais foram as Cruzadas?

As Cruzadas foram divididas em oito campanhas oficiais e ao menos duas de caráter popular, se considerarmos apenas as campanhas direcionadas inicialmente ao Oriente Médio. É essencial compreender as principais características de cada uma, já que seus pretextos e objetivos primários variavam de acordo com os interesses europeus mais imediatos — como você poderá perceber, com o tempo, elas foram se tornando cada vez mais desastrosas, salvo algumas exceções.

As Cruzadas oficiais são categorizadas por números ordinais, enquanto as populares receberam nomes que condizem com os principais grupos que as formavam. Nos tópicos a seguir, elas estão dispostas em ordem cronológica.

→ Cruzada dos Mendigos (1096)

Também referenciada como “Cruzada Popular” ou “Cruzada dos Pobres”, a primeira campanha para Jerusalém foi organizada por populares e antecedeu à oficial Primeira Cruzada em poucos meses. Motivados pelos discursos de reconquista do papa Urbano II, dezenas de milhares de peregrinos das classes mais pobres partiram em direção a Jerusalém sob a promessa de irem para o Paraíso, caso morressem na missão santa de reconquistá-la. Liderados pelo monge francês Pedro, o Eremita, os peregrinos mal equipados foram facilmente dizimados ainda na Anatólia, a dias de distância do objetivo principal.

Gravura representando Pedro, o Eremita, abençoando os voluntários da Cruzada dos Mendigos.
Pedro, o Eremita, abençoando os cruzados voluntários antes do início da missão.

→ Primeira Cruzada (1096-1099)

A Primeira Cruzada, como campanha inicial organizada a partir do Concílio de Clermont organizado pelo Papa Urbano II, objetivava reconquistar a cidade de Jerusalém a fim de atender ao apelo dos bizantinos que estavam perdendo valiosos territórios para os muçulmanos do Califado Ortodoxo. Para isso, foram enviados exércitos da França, do Sacro Império Romano-Germânico e de outros Estados independentes. A reconquista foi um sucesso e o objetivo principal cumprido.

Além disso, foram fundados Estados Cruzados nas costas marítimas da Anatólia e da Palestina. Por sua vez, o sucesso foi efêmero: o conquistador muçulmano Saladino retomaria a cidade dos cristãos quase noventa anos mais tarde, em 1187.

→ Segunda Cruzada (1147-1149)

Muitos anos se passaram desde a Primeira Cruzada quando os monarcas europeus Luís VII da França e Conrado III da Alemanha organizaram uma nova missão, dessa vez conclamada pelo papa Eugênio III. O Condado de Edessa, que havia sido fundado como Estado Cruzado durante a primeira campanha oficial, caiu em domínio muçulmano em 1144. Em resposta, foram enviados os “soldados de Deus” da Ordem dos Templários, fundada após a Primeira Cruzada, e os médicos e soldados da veterana Ordem dos Hospitalários.

Os templários, oriundos da criação dos Estados Cruzados, tinham como objetivo combater militarmente os “infiéis” muçulmanos, e mesmo assim fracassaram em batalha, deixando o Condado de Edessa sob domínio dos soldados islâmicos. Uma ação paralela ocorrida durante a Segunda Cruzada foi o apoio dado pelos templários ao rei português Afonso Henriques, na campanha que retirou o poder muçulmano da cidade de Lisboa.

→ Terceira Cruzada (1189-1192)

A mais importante e impactante de todas as Cruzadas foi a terceira, também conhecida como “Cruzada dos Reis”. Diante da expansão da Dinastia Aiúbida, liderada pelo califa Saladino, Jerusalém foi reconquistada em 1187 pelos muçulmanos (ou sarracenos, na perspectiva europeia), após a Batalha de Hattin. Frente a essa grande perda, estabeleceu-se uma poderosa aliança que daria início à Terceira Cruzada, formada pelos monarcas Ricardo Coração de Leão (Inglaterra), Filipe II (França) e Frederico Barbarossa (Sacro Império Romano-Germânico).

Pintura retratando uma batalha do exército de Saladino contra os cristãos nas Cruzadas.
A Terceira Cruzada buscava reconquistar Jerusalém, tomada por Saladino em 1187. Os cristãos foram derrotados novamente.

Nela, dezenas de milhares de soldados foram enviados para a Palestina, onde se uniram aos templários, agora uma rica elite militar, para retomar a cidade santa. Apesar de inicialmente vencerem algumas batalhas contra Saladino, os guerreiros em missão, dos quais uma grande parcela utilizava pesadas armas e armaduras, acabaram não sendo páreos para a ágil cavalaria “sarracena”, bem como para o cerco concentrado dos aiúbidas e o impedimento na recepção de provisões. Por outro lado, Saladino concedeu a Ricardo Coração de Leão o direito de peregrinação de cristãos desarmados dentro da cidade.

→ Quarta Cruzada (1202-1204)

A derrota dos cristãos na Terceira Cruzada abalou o moral dos cruzados. Apesar de uma nova cruzada ter sido organizada pelo papa Inocêncio III para retomar Jerusalém a partir de uma campanha pelo Egito, os objetivos, no decorrer da missão, se desviaram completamente: dessa vez, os cruzados, conduzidos pelos italianos venezianos (uma potência naval daquele período), acabaram por empreender um combate pelo controle comercial do Mar Mediterrâneo.

Em 1204, os cristãos saquearam a capital bizantina Constantinopla, de fé ortodoxa. Até 1261, Veneza exerceu grande influência sobre o Mediterrâneo, ao menos até a retomada da capital pelos bizantinos, que receberam o apoio do Estado de Gênova. A campanha é também conhecida como “Cruzada Comercial”.

→ Cruzada Albigense (1209-1244)

Essa cruzada se difere do objetivo principal das demais, e por isso, não é considerada na contagem ordinal. Tratava-se de uma campanha interna contra os cátaros ao sul da França, que haviam sido declarados hereges pela Igreja Católica. O resultado da cruzada, apesar de não erradicar os cátaros, foi a anexação do território dos perseguidos, Languedoc, ao Reino da França. 

Cruzada das Crianças (1212)

Esta cruzada não oficial foi organizada e estimulada espontaneamente por populares cristãos, mesmo após a negação do papa diante do pedido de uma aprovação. Apesar do nome, ela abrangia dezenas de milhares de jovens e adultos de baixa renda, mas as tragédias que se sucederam impediram qualquer estimativa de sucesso: muitos morreram ainda em território europeu, durante a travessia pelo Alpes, e outros foram enganados por mercadores que, ao abrigá-los em seus navios para atravessar o Mediterrâneo, acabaram sendo vendidos como escravos.

→ Quinta Cruzada (1217-1221)

Visivelmente enfraquecidos, os cristãos foram, dessa vez, liderados pelos reis André II da Hungria e duque Leopoldo VI da Áustria. O objetivo era novamente desembarcar no Egito para atingir Jerusalém, mas sequer se distanciaram do rio Nilo — os cruzados acabaram cercados e derrotados na cidade do Cairo.

→ Sexta Cruzada (1228-1229)

Com o rei Frederico II do Sacro Império Romano-Germânico na liderança, a Sexta Cruzada foi mais diplomática que coerciva. Nela, Frederico II e o sultão dos aiúbidas Al-Kamil (sobrinho de Saladino) negociaram em segredo, firmando o Tratado de Jafa (1229), que significou um abalo para as forças islâmicas. Jerusalém, Belém, Nazaré e outras cidades de importância para os cristãos foram entregues aos cruzados em troca de uma paz que permitiria ao sultão concentrar suas forças na guerra civil que eclodira no Império Aiúbida.

Mas, havia também um plano de longo prazo a favor do sultão naquele pacto: ele tinha conhecimento da rivalidade de Frederico II com a Igreja Católica, já que o rei havia sido excomungado pelo papa, de forma que a “doação” de Jerusalém apenas acirraria as disputas entre o Sacro Império e os líderes católicos, enquanto as forças muçulmanas poderiam se reorganizar.

→ Sétima Cruzada (1248-1254)

Indiretamente, os planos do sultão Al-Kamil foram bem-sucedidos, porque Jerusalém passou a ser novamente tomada pelos muçulmanos em 1244, dessa vez, de forma definitiva. Então, mais uma cruzada foi organizada, agora sob a liderança do rei francês Luís IX. O plano era novamente se aproximar da cidade santa por meio de um desembarque no Egito, mas, na prática, a campanha foi tão desastrosa que os cruzados foram emboscados a poucos quilômetros do ponto de desembarque pelo rio Nilo, em direção ao Cairo.

Para piorar a situação dos francos, o rei Luís IX foi capturado durante a emboscada, obtendo a liberdade apenas por meio do pagamento de uma humilhante exigência de metade da renda anual da França.

→ Oitava Cruzada (1270)

A última cruzada foi novamente conduzida por Luís IX, em busca de redenção por seu fracasso anterior. A missão teve como objetivo inicial um desembarque na Tunísia (significativamente mais distante de Jerusalém que o Egito), mas assim que se estabeleceram no norte africano, os combatentes foram assolados por doenças, especialmente tifo e disenteria. Esta afetou o próprio rei, que não resistiu à infecção e morreu naquele mesmo ano, dissolvendo a missão antes mesmo de iniciá-la.

“O cerco de Acre”, pintura de Louis-Dominique Papety (1845), último conflito das Cruzadas.
 “O cerco de Acre”. A recaptura da cidade de Acre, em 1291, marcou a vitória dos muçulmanos sobre os cruzados.

Os últimos cruzados fixados na Palestina foram oficialmente derrotados em 1291, quando os muçulmanos recapturaram a cidade de Acre.

Quais foram as consequências das Cruzadas?

As Cruzadas trouxeram grandes consequências tanto para a Europa Ocidental, quanto para o Oriente Médio e os povos muçulmanos. Um dos resultados mais impactantes, para os europeus ocidentais, foi o declínio do feudalismo. Esse complexo modelo socioeconômico, comum dos reinos europeus, passou a ser substituído pela unificação das posses territoriais a favor dos monarcas, o que influenciou na centralização do poder dos reis. Isso ocorreu devido à morte ou endividamento de diversos nobres que partiram para as Cruzadas, mas que acabaram deixando suas posses feudais sob domínio de monarcas na França, Inglaterra e Sacro Império, por exemplo.

A consolidação de um “Império Latino do Oriente” — ou seja, a conquista dos cruzados sobre o Império Bizantino a partir do saque a Constantinopla, oriunda da Quarta Cruzada — significou também o enfraquecimento dos bizantinos de forma irreversível. Apesar de a cidade ter sido reconquistada pelos bizantinos décadas mais tarde, a força de seu império nunca foi restaurada, algo que auxiliou na conquista de sua capital pelos turco-otomanos em 1453 e encerrou oficialmente o período da Idade Média.

Para os muçulmanos, as consequências foram igualmente profundas. Os constantes ataques dos cruzados sobre os seus povos resultaram na união de Estados islâmicos, principalmente por intermédio do sultão Saladino, que aproximou Síria, Egito e Mesopotâmia sob o mesmo ideal sunita. Após a expulsão definitiva dos cruzados no ataque a Acre em 1291, as forças beligerantes dos mamelucos egípcios permitiram a ascensão dessa elite de combate como a mais influente de grande parte da África e Oriente Médio, resultando no fortalecimento do poderoso Sultanato Mameluco, que perdurou até 1517.

Da mesma forma, a queda de Constantinopla para os turco-otomanos apenas contribuiu para a expansão de seu império, que atingiu o seu auge durante Idade Moderna se tornou influente até seu desmantelamento, ocorrido na contemporânea década de 1920.

As consequências não foram apenas territoriais. No setor econômico, as cruzadas influenciaram na intensificação da rota mediterrânica, que permitiu o fluxo de produtos orientais no ocidente europeu. Cidades como Veneza, Gênova e Pisa financiaram os exércitos em campanha a fim de obterem feitorias nos portos instaurados na Palestina. Diretamente, essa influência do mercado europeu incentivou a importação de bens de luxo obtidos no Oriente, como especiarias, seda, metais preciosos e outros produtos valiosos, que consequentemente, enriqueceram Estados europeus.

Culturalmente, Ocidente e Oriente consolidaram um relevante intercâmbio: muito do conhecimento preservado pelos muçulmanos, como partes das obras de intelectuais gregos e romanos como Aristóteles, Hipócrates, Euclides, Galeno, Ptolomeu etc., foi redescoberto pelos europeus, bem como o primeiro contato com os estudos dos filósofos muçulmanos Avicena e Averróis. Da mesma forma, muito da medicina, matemática, astrologia, arquitetura, química e engenharia bélica, que eram influentes áreas de conhecimento sob domínio dos povos islâmicos, também passou a ser adotado pelos europeus, assim como parte do seu vocabulário, especialmente do árabe.

Apesar de alguns pontos positivos, o saldo negativo das Cruzadas foi elevado. Além de milhões de mortes causadas pelas campanhas (as fontes variam entre 1 e 6 milhões de vítimas, entre combatentes e civis), ela foi, em longo prazo, causadora de disputas motivadas pelo ódio contra povos e religiões. Os séculos de combate provocados pelos cruzados apenas consolidaram uma desconfiança mútua entre católicos e muçulmanos.

Centralizou-se a figura do papa no combate aos “infiéis” ideologicamente de maneira semelhante à perseguição da Igreja contra os cátaros na Cruzada Albigense (e a eventual instauração da Santa Inquisição em 1231); do outro lado, a jihad “da espada” foi intensificada por grupos muçulmanos como resistência às incursões da Igreja Católica. Os religiosos judaicos também foram afetados, já que os cristãos passaram a realizar massacres contra seus povos, também acusados de heresia, disseminando, com isso, o antissemitismo pela Europa.

Até mesmo a chegada dos europeus à América foi um evento que, indiretamente, foi influenciado pelas Cruzadas. Com o fechamento da rota comercial para as potências aliadas à Igreja em Constantinopla, após a conquista da capital pelos turco-otomanos contra os enfraquecidos bizantinos (parcialmente graças à Quarta Cruzada) em 1453, os europeus passaram a utilizar rotas alternativas ou procurar por novos itinerários para alcançar o Oriente, como fariam, ao final do século XV, Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral.

Quem ganhou as Cruzadas?

Ambos os lados beligerantes envolvidos nas Cruzadas obtiveram perdas e concessões, mas de uma maneira simples e direta, pode-se afirmar que os vitoriosos foram os muçulmanos. Os quase duzentos anos de campanhas cristãs direcionadas principalmente à reconquista de Jerusalém e, consequentemente, ao combate aos hereges muçulmanos, foram em geral malsucedidos. Por outro lado, a força militar dos impérios islâmicos apenas se fortaleceu, estabelecendo-se como uma potência hegemônica não apenas no Oriente Médio, mas também na Pérsia, norte da África, Península Ibérica, e futuramente, Anatólia.

Os Estados europeus envolvidos nas Cruzadas, apesar de sua derrota militar, fortaleceram-se como reinos, e consequentemente, tornaram-se mais ricos. As cidades que mais se beneficiaram das campanhas, de imediato, foram as italianas Veneza, Gênova e Pisa, devido ao domínio que exerceram sobre o Mediterrâneo, apesar da oscilação de suas hegemonias, perante as incessantes guerras entre ambas. Os reinos mais beneficiados, em médio prazo, foram a França e a Inglaterra, que se tornaram Estados absolutistas. A influência da Igreja Católica apenas se fortaleceu na qualidade de instituição política e religiosa, apesar do enfrentamento de diversas crises durante esse processo.

Saiba mais: Império Otomano — um dos mais duradouros e poderosos da história

Exercícios resolvidos sobre as Cruzadas

Questão 1. (ESPM) Quanto ao movimento cruzadista, é correto afirmar que:

a) o movimento cruzadista refletiu a unidade da Igreja Católica Romana, que convocou, liderou e demonstrou sua autoridade indiscutível sobre toda a cristandade.

b) o movimento cruzadista, organizado sob forte caráter sagrado, nada teve de relação com interesses comerciais.

c) as Cruzadas foram uma contraofensiva cristã diante do avanço árabe-muçulmano no Mediterrâneo e no sul da Europa.

d) o movimento cruzadista envolveu a participação da Igreja Católica Romana e da nobreza e não contou com a presença de fiéis das mais baixas camadas sociais.

e) o movimento cruzadista foi um completo sucesso, tendo em conta a recuperação de Jerusalém e da Terra Santa no século XIII.

Resposta: C

As Cruzadas surgiram como uma contraofensiva ao avanço muçulmano que se iniciou sobre os domínios bizantinos e se voltou para o leste do Mediterrâneo, o sul europeu (Península Ibérica e Bálcãs), e principalmente, para a cidade de Jerusalém.

Apesar de, para alguns, a alternativa A parecer correta, o erro em sua afirmação está em associar a Igreja Católica como infalível e hegemônica sobre todos os envolvidos nas campanhas cruzadas, algo que se mostrou uma inverdade, por exemplo, quando na Sexta Cruzada, a liderança foi conduzida pelo rei excomungado Frederico II.

Questão 2. (FGV-SP) Chegam a Jerusalém a 7 de junho de 1099. Jejuam e fazem procissões em redor da cidade, esperando que as suas orações deitem abaixo as muralhas, do mesmo que as trombetas de Josué tinham derrubado as de Jericó. A chegada a Jafa de navios genoveses, pisanos e venezianos é para eles de um grande auxílio [...] A cidade tão cobiçada é tomada a 15 de julho de 1099. Assistimos, então, à pilhagem e ao massacre sistemático de toda a população. Depois do regresso dos cruzados ao Ocidente, a posse de Jerusalém torna-se precária.

Tate, G. Dois séculos de confronto entre o Oriente e o Ocidente. In Arneville, M.-B. D’ e outros, As Cruzadas. Trad., Cascais: Pergaminho, 2001, p. 22.

O texto acima se refere à:

a) Terceira Cruzada e revela os interesses bizantinos nessa expedição.

b) Reconquista Ibérica e apresenta as motivações religiosas dessa empreitada.

c) Sétima Cruzada e demonstra a forte presença da monarquia francesa.

d) Primeira Cruzada e revela a forte religiosidade da peregrinação armada.

e) Quarta Cruzada e revela a participação exclusiva dos fiéis franceses.

Resposta: D

Apesar de o texto que precede a questão aludir corretamente a diversas características da Primeira Cruzada, a afirmação mais decisiva é a referência ao sucesso da conquista de Jerusalém, “tomada a 15 de julho de 1099”, assim como ano em questão, que encerra a primeira campanha oficial dos cruzados. A Primeira Cruzada foi a única que refletiu o sucesso das missões cruzadas, embora não por muito tempo.

Créditos da imagem

[1] Wikimedia Commons (reprodução)

Fontes

ECO, Umberto (Org.). Idade Média: Bárbaros, cristãos e muçulmanos. Porto Alegre: Dom Quixote, 2011.

LEWIS, Bernard. O Oriente Médio: Do advento do cristianismo aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

LÓPEZ, Roberto. Poder e religião na Europa medieval: Papado, Império e grandes reinos dinásticos. Barcelona: Bonalletra Alcompas, 2018.

OLSEN, Oddvar (Org.). Templários: As sociedades secretas e o mistério do Santo Graal. Rio de Janeiro: Bestseller, 2011.

ROBINSON, John J. Os Cavaleiros Templários nas Cruzadas: Prisão, fogo e espada. São Paulo: Madras, 2011.

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