Stalinismo

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O stalinismo é nome que se dá ao regime totalitário construído por Josef Stalin, na União Soviética (URSS), entre 1927 e 1953. Josef Stalin era membro do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e, após assumir o poder, realizou transformações radicais e impôs um regime de terror, que perseguiu minorias e opositores.

O regime stalinista conseguiu industrializar a União Soviética, transformando esse país em uma grande potência. Também mobilizou a resistência contra os nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da morte de Stalin, os crimes cometidos pelo Estado soviético foram denunciados pelo próprio PCUS.

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Construção do stalinismo

O stalinismo, enquanto regime autoritário, só foi implantado de fato quando Stalin assumiu o comando inconteste do PCUS e da União Soviética. Isso se deu em 1927 e iniciou um período de quatro anos de disputas internas pelo comando do partido e do país. Essa disputa pelo poder foi travada por Stalin, Trotsky, Zinoviev e Kamenev.

Durante a década de 1920, Stalin disputou o poder da União Soviética e prevaleceu fazendo com que seus adversários fossem expulsos do partido.
Durante a década de 1920, Stalin disputou o poder da União Soviética e prevaleceu fazendo com que seus adversários fossem expulsos do partido.

Tudo se iniciou com os problemas de saúde de Vladimir Lenin, líder da URSS desde a Revolução de Outubro de 1917. Lenin tinha sofrido um AVC e, por essa razão, membros influentes do partido passaram a disputar a sucessão. Lenin mostrou-se contrário à possibilidade de Stalin assumir a URSS, mas Stalin era um membro influente no interior do partido por sua atuação como burocrata.

Apoiado por muitos membros do PCUS, Stalin assegurou-se no poder soviético com a expulsão de Trotsky, Zinoviev e Kamenev do partido. Os adversários de Stalin acabaram sendo perseguidos e mortos durante a década de 1930 (no caso de Zinoviev e Kamenev). Trotsky foi morto por um espião soviético em 1940.

Industrialização

Uma das primeiras grandes medidas promovidas por Stalin foi incentivar a industrialização da União Soviética. Esse plano do governo foi colocado no lugar da Nova Política Econômica (NEP), plano instituído por Lenin para promover a abertura da economia soviética.

Stalin pôs fim à economia de mercado e planificou a economia, ou seja, a economia soviética passou a ser inteiramente controlada pelo Estado. Foi assim que foi planejado o Plano Quinquenal, em 1929. Esse plano estipulava metas que deveriam ser alcançadas em até cinco anos; depois disso, haveria um novo plano quinquenal com novas metas.

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Esse primeiro plano quinquenal estipulava metas como aumentar a produção industrial em 180%, a geração de eletricidade em 335% e a disponibilidade de mão de obra para a indústria em 35%|1|. O governo soviético alegou que essas metas foram alcançadas em 1932, assim, o primeiro plano quinquenal foi concluído com quatro anos.

Esse plano econômico criou uma grande pressão sobre os líderes e trabalhadores. O governo exigia que as metas fossem alcançadas a todo custo, o que criou ambientes de trabalho tensos, bem como levou os trabalhadores à exaustão.

A produção industrial da União Soviética aumentou consideravelmente, assim como aumentou o número de trabalhadores envolvidos com a indústria. Os primeiros planos quinquenais deram destaque a áreas da indústria pesada, como a siderurgia e a metalurgia, e priorizaram também a produção de energia elétrica.

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Agricultura soviética

As fazendas coletivas foram criadas por Stalin no final da década de 1920.
As fazendas coletivas foram criadas por Stalin no final da década de 1920.

Junto do Plano Quinquenal, Stalin lançou uma reforma profunda na agricultura soviética: a coletivização da terra. Com essa reforma, Stalin decretou a abolição da propriedade privada nas zonas rurais, e as terras produtivas da União Soviética passariam gradativamente ao controle do Estado. Nessas terras, o Estado criava fazendas coletivas e nomeava os camponeses para trabalhar nesses locais.

A coletivização das terras é entendida por historiadores, como Timothy Snyder, como uma tentativa de Stalin de impor controle sobre a maior classe social da URSS: os camponeses|2|. Além disso, Stalin desejava acabar com a classe social dos camponeses ricos, chamada de kulaks. Isso resultou no transporte de milhares de kulaks para regiões como os Urais e a Sibéria.

Houve resistência à coletivização da terra, uma vez que o Estado tomava posse da terra e de tudo que estava nela, como as construções, o que era produzido, as ferramentas utilizadas no trabalho e até os animais de carga e os rebanhos. Os grupos que resistiam eram tratados com violência, sendo executados ou mandados para as gulags (campos de trabalho forçado).

Em março de 1930, cerca de 71% das terras soviéticas já haviam sido coletivizadas. Os trabalhadores designados a trabalhar nesses locais ficavam presos a eles e não poderiam abandoná-los em hipótese alguma|3|. A resistência à coletivização foi enorme, sobretudo na Ucrânia. Mais de um milhão de atos de resistência foram realizados naquele local em 1930|4|.

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  • Grande Fome

A coletivização da terra desestabilizou o funcionamento da agricultura soviética e fez com que a produção caísse. Isso gerou falta de alimentos, o que ocasionou fome generalizada em todo o país. Em locais como o Cazaquistão, a fome causou a morte de milhões de pessoas. A Ucrânia, por sua vez, acabou ficando marcada como o local que mais sofreu as consequências da coletivização.

As metas estipuladas pelo governo soviético para as fazendas coletivas na Ucrânia eram demasiadamente elevadas e, além disso, a produção agrícola na Ucrânia, em 1932, caiu de maneira sensível. Com a fome espalhando-se, o governo stalinista tomou medidas que tornaram a situação mais dura ainda.

A Grande Fome, que atingiu a Ucrânia entre 1932 e 1933, ficou conhecida como Holodomor.[1]
A Grande Fome, que atingiu a Ucrânia entre 1932 e 1933, ficou conhecida como Holodomor.[1]

Com as cotas de produção não alcançadas, o governo soviético passou a exigir a devolução das sementes e, tempos depois, também passou a exigir cotas de carne para aqueles que não atingiam a cota de produção. Os camponeses também foram proibidos de se mudar para as cidades (o que muitos faziam para ter acesso à comida).

O resultado foi trágico e gerou milhões de mortos na Ucrânia. Muitos historiadores debatem que essa fome foi causada propositalmente pelo governo soviético para enfraquecer o nacionalismo ucraniano e a resistência à coletivização que existia lá. Os historiadores falam em cerca de 5 milhões de mortos de inanição durante a Grande Fome, que é conhecida na Ucrânia como Holodomor.

Expurgos

Além de toda a violência cometida durante a coletivização e a perseguição aos kulaks, o stalinismo também ficou marcado pela perseguição a minorias étnicas e pela paranoia de Stalin, que imaginava que todos conspiravam para derrubá-lo do poder. A década de 1930 ficou marcada por expurgos, com destaque para o período 1937-1938, que abrigou o Grande Expurgo.

Os expurgos voltaram-se para grupos diversos. Os primeiros grandes alvos foram as minorias étnicas. Stalin perseguia abertamente grupos étnicos com movimentos nacionalistas fortes e isso fez com que milhares de pessoas fossem enviadas para campos de trabalho forçado ou fossem sumariamente executadas.

Os poloneses foram um dos principais grupos perseguidos pelo stalinismo. Timothy Snyder fala que 1/8 das quase 700 mil vítimas do Grande Terror foram poloneses. Isso sugere que cerca de 85 mil poloneses foram mortos a mando do Estado soviético. Outras minorias, como bielorrussos e lituanos, também foram vítimas da violência stalinista.

Os expurgos também se voltaram contra opositores, kulaks, membros do partido e do governo que supostamente rivalizavam com Stalin e até militares. A marca da violência stalinista era executar suas vítimas com um tiro na nuca. Ao todo, entre 10 e 20 milhões de pessoas foram mortas pelo stalinismo e até 13 milhões foram aprisionadas nas gulags.

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Fim do stalinismo

O stalinismo, enquanto regime, teve fim com a morte de Stalin, em março de 1953, vítima de um derrame. Nessa altura, Stalin estava no ápice de sua popularidade, principalmente por conta da sua liderança na luta contra a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Stalin conduziu toda a resistência do país e prevaleceu como vitorioso em 1945.

Stalin, no entanto, teve grande parcela de culpa nos desastres iniciais na luta contra os alemães. Isso porque os expurgos tinham privado o Exército Vermelho de comandantes importantes e, quando a luta começou em 1941, os comandantes soviéticos mostraram-se incompetentes. Somente depois de meses, foram sendo promovidos militares competentes aos cargos de comando.

A vitória na 2ª Guerra fez Stalin transformar-se em herói na União Soviética.[2]
A vitória na 2ª Guerra fez Stalin transformar-se em herói na União Soviética.[2]

Stalin também pecou por deixar a fronteira soviética desprotegida. Quando os alemães invadiram a URSS, encontraram enorme facilidade para avançar pelo território soviético. A partir de 1942, com o aumento da capacidade industrial soviética e o aumento do número de soldados disponíveis, o país começou a se impor aos alemães.

Entre 1944 e 1945, Stalin exigiu que o ataque contra Berlim fosse realizado somente pelos soviéticos como forma de vingar toda a destruição causada pelos alemães na URSS. Os soviéticos mobilizaram 2,5 milhões de soldados para atacar Berlim e, na virada de abril para maio de 1945, derrotaram os nazistas definitivamente.

A partir de 1945, o culto a Stalin aumentou e ele passou a ser visto como um grande herói nacional. Antes de morrer, Stalin ainda interferiu na Guerra da Coreia e na Revolução Chinesa e deu continuidade aos expurgos na URSS. Depois de sua morte, o governante seguinte da URSS, Nikita Kruschev, denunciou os crimes de Stalin e colocou fim ao culto à personalidade do antigo líder soviético. Para saber mais detalhes da vida de Josef Stalin, leia: Josef Stalin: biografia, governo, morte.

Notas:

|1| SIEGELBAUM, Lewis. A construção do Estalinismo. In.: FREEZE, Gregory L. (org.). História da Rússia. Lisboa: Edições 70, 2017, p. 366.

|2| SNYDER, Timothy. Terras de Sangue: a Europa entre Hitler e Stalin. Record: Rio de Janeiro, 2012, p. 51.

|3| Idem, p. 55.

|4| Idem, p. 57.

Créditos das imagens:

[1] Tanya Kalian e Shutterstock

[2] E_Photos e Shutterstock

Por Daniel Neves Silva

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