Peronismo

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Juan Domingo Perón (de gravata borboleta) foi eleito presidente em 1946 e destituído da presidência por um golpe militar em 1955.*

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Por Daniel Neves Silva

O peronismo foi o período na história da Argentina em que Juan Domingo Perón foi o presidente do país. Perón foi presidente do país entre 1946 e 1955 e de 1973 a 1974. Neste texto, o enfoque de abordagem será o primeiro governo que se iniciou em 1946 e foi encerrado em 1955. Juan Domingo Perón é considerado por muitos como o símbolo do populismo na Argentina e é comparado por muitos com Getúlio Vargas.

 

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Contexto histórico

A ascensão política de Perón aconteceu na década de 1940 e está relacionada com o golpe de 4 de junho de 1943 que foi o responsável pela ascensão do Grupo de Oficiais Unidos, conhecido como GOU ao poder da Argentina. O GOU era formado por um grupo de militares ultraconservadores, extremamente católicos e dos quais muitos simpatizavam com o nazifascismo.

O governo do GOU, por sua ideologia conservadora, adotou uma plataforma que buscava combater qualquer tipo de agitação política, principalmente a que era organizada por grupos comunistas e sindicalistas. No período de governo do GOU é que Juan Domingo Perón assumiu cargos na política argentina.

Perón era um militar que durante o governo do GOU assumiu a Secretaria do Trabalho e Provisão, em dezembro de 1943, e foi na gestão dessa secretaria que Perón fez sua fama e aproximou-se de trabalhadores e sindicalistas. Perón mantinha-se em constante contato com as centrais sindicais e promoveu uma série de benefícios aos trabalhadores, tais como a criação de férias remuneradas.

Essas ações fizeram com que Perón se tornasse popular entre as classes trabalhadoras. Com o crescimento de sua influência, conseguiu ascender ao posto de vice-presidente do país. Nessa posição, Perón passou a construir o seu projeto político almejando alcançar a presidência da Argentina. Percebendo isso, as elites da Argentina romperam com Perón (as elites temiam a política de massa peronista).

O projeto de Perón baseava-se em um discurso voltado aos trabalhadores, que era anticapitalista e que defendia a promoção de justiça social. O rompimento das elites argentinas com Perón levou a uma conspiração que resultou na prisão de Perón em 8 de outubro de 1945. Perón foi levado a uma prisão na Ilha de Martín García, localizada na foz do Prata.

A prisão de Perón imediatamente mobilizou as classes trabalhadoras por meio dos sindicatos mobilizados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT). As centrais sindicais convocaram uma série de manifestações públicas em Buenos Aires e conseguiram reunir uma enorme multidão em apoio a Perón. O resultado das manifestações foi a libertação de Perón, no dia 17 de outubro.

Perón saiu da prisão fortalecido, discursou a uma multidão na Casa Rosada, sede do poder do país, e organizou-se para concorrer à presidência do país. Na campanha eleitoral contou com o apoio do Exército e da Igreja e ganhou a disputa com 300 mil votos a mais que seu adversário, José Tamborini.

Governo peronista

O primeiro mandato de Perón tinha extensão de seis anos, indo de 1946 a 1952. Em 1951, foi realizada nova eleição que reelegeu Perón para mais seis anos, porém um golpe militar interrompeu o segundo mandato.

O governo peronista entre 1946 e 1955 ficou marcado pelo desmantelamento das instituições democráticas da Argentina. Além disso, o governo de Perón é caracterizado por historiadores como populista e autoritário.

Na economia, Perón encontrou uma saída razoavelmente favorável, porque o país havia se aproveitado da Segunda Guerra Mundial para encher as reservas cambiais do país. A agricultura do país estava em crise e, por isso, Perón incentivou o desenvolvimento industrial do país. Também implantou uma política de distribuição de renda que foi responsável pelo aumento no consumo.

Nesse período, os argentinos, aproveitando da euforia da distribuição de renda, consumiram de maneira veloz mercadorias como geladeiras e rádios. Esse aumento no consumo, porém, teve um reflexo negativo, pois aumentou a inflação do país, o que resultou no encarecimento do custo de vida. A postura econômica de Perón também foi nacionalista, uma vez que nacionalizou ferrovias, por exemplo.

Na política externa, o governo de Perón implantou uma espécie de terceira via, uma vez que não sujeitou seu país aos interesses americanos e tampouco aos interesses soviéticos. Optou permanecer com uma política externa neutra, uma decisão arriscada em tempos de Guerra Fria.

Nas questões trabalhistas, ampliou seu contato com as centrais sindicais e procurou ampliar o controle do Estado sobre essas instituições. De 1947 em diante, essa mediação passou a ser realizada por sua esposa, Evita Perón. A esposa de Perón teve uma importância crucial para consolidar a imagem do Estado peronista como Estado benfeitor.

Na política, Perón já deu mostras do seu autoritarismo, pois tentou controlar seus opositores, mas de maneira tímida. Perón tinha objetivos de refazer as instituições políticas do país de forma a fazer com que a democracia perdesse importância no país. A ideia era fazer com que os interesses do Executivo, isto é, de Perón, se sobressaísse em relação a qualquer instituição democrática do país.

Perón tinha a habilidade de conciliar diferentes interesses, uma vez que seu poder de negociação era baseado na ideia de adaptar seu discurso com os diferentes grupos que negociavam com o governo. As instituições argentinas ainda foram utilizadas por Perón para reproduzir a ideologia oficial do governo. Como parte do seu projeto, criou o Partido Peronista.

O segundo mandato de Perón foi garantido quando venceu a eleição presidencial de 1951, derrotando seu opositor Ricardo Balbín ao obter 64% dos votos. Esse resultado expressivo, mostra a força de Perón, já que naquele ano ele tinha sobrevivido a uma tentativa de golpe militar. Em seu segundo governo, Perón ampliou sua vinculação com o autoritarismo.

O autoritarismo de Perón foi acompanhado da radicalização da oposição, simbolizada com um atentado à bomba que o presidente sofreu em abril de 1953. Após isso, Perón intensificou a perseguição sobre seus opositores. A decadência do governo peronista aconteceu quando ele rompeu com a Igreja Católica.

O enfraquecimento de Perón após romper com a Igreja Católica trouxe outros opositores – como a Marinha – a conspirar contra o presidente. O resultado disso foi uma primeira tentativa de golpe, em 16 de junho de 1955. Essa tentativa fracassou, porém, no dia 16 de setembro do mesmo ano, um levante militar organizado em Córdoba derrubou o presidente que, então, partiu para o exílio. Uma semana depois, o general Lombardi declarava-se presidente da Argentina.

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Peronismo e fascismo

Muitos associam o peronismo, como projeto político, ao fascismo, regime político que tomou o poder da Itália em 1922. Existiram algumas semelhanças e aproximações do peronismo com o fascismo, mas, na visão dos historiadores, afirmar que o peronismo foi um governo fascista é um grande exagero. As diferenças entre os dois regimes são maiores que as semelhanças.

Entre as aproximações pode ser destacado o discurso incisivo de ambas contra o comunismo, as ações criadas por ambos governos para propagar a ideologia do regime e também as ações dos dois governos para mediar as relações patronais. É importante mencionar que o próprio Perón tinha uma certa admiração pelo regime fascista.

Peronismo e getulismo

O regime peronista também é muito associado ao regime varguista. Essa comparação repercutiu no Brasil, principalmente durante o segundo governo Vargas, quando o presidente brasileiro era acusado de tentar se aproximar de Perón para implantar uma república sindicalista no Brasil. Contudo, essas acusações eram falsas, pois nunca houve ações de aproximação de Vargas em direção a Perón.

De toda forma, ambos os governos são encarados como populistas e há de fato muitas semelhanças entre peronismo e varguismo, mas é importante pontuar que ambos projetos políticos foram resultado dos cenários particulares de cada país, portanto, não existe uma relação entre os dois países que explique a ascensão de Vargas e Perón.

*Créditos da imagem: FGV/CPDOC

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