Noite dos Cristais

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Loja de um judeu com a vidraçaria destruída por conta do pogrom conhecido como Noite dos Cristais.

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Por Daniel Neves Silva

A Noite dos Cristais foi um grande pogrom organizado pelo governo nazista contra os judeus na Alemanha entre 9 de novembro e 10 de novembro de 1938. A palavra pogrom é utilizada para se referir a um ataque violento organizado contra determinado grupo. O pogrom Noite dos Cristais foi realizado pelo governo alemão contra a população judia que residia no país.

Esse evento é visto de maneira simbólica por muitos historiadores, pois consolidou a guinada de violência na Alemanha contra os judeus e deu, de fato, abertura ao processo de encarceramento de judeus em campos de concentração. Até então, as ações contra judeus eram realizadas nos campos político e jurídico (apesar de ataques violentos também acontecerem). Com a Noite dos Cristais, a mensagem dada para os judeus era de que a violência contra eles aumentaria consideravelmente.

O nome “Noite dos Cristais” dado a esse pogrom faz menção aos cacos de vidros que se espalharam pelas grandes cidades alemãs, decorrentes da destruição de vidraças de lojas que pertenciam a judeus.

Acesse também: Conheça a história dos campos de concentração construídos nos Estados Unidos

Por que aconteceu o pogrom contra os judeus em 1938?

Os planos de Hitler para os judeus da Alemanha eram simples: o líder da Alemanha tinha como objetivo máximo expulsar todos os judeus de seu país. A ideologia nazista era extremamente antissemita, e esse ódio já era manifestado na sociedade alemã desde o século XIX.

Naquele momento, em 1938, a situação dos judeus era extremamente delicada em diversos sentidos, pois sofriam cada vez mais com a discriminação que existia na sociedade alemã e muitos de seus direitos civis e liberdades individuais estavam sendo retirados pelos nazistas. O pogrom de 1938 inaugurou a fase da violência e do aprisionamento dos judeus.

A Noite dos Cristais foi organizada pelo Partido Nazista como uma resposta ao assassinato do diplomata alemão Ernst vom Rath. O diplomata residia em Paris e foi vítima de um atentado realizado por Herschel Grynszpan, estudante judeu de 17 anos. Esse estudante era polonês de nascimento, mas cresceu na Alemanha e estava revoltado por seus pais terem sido expulsos da do país.

No dia 8 de novembro de 1938, Grynszpan foi à embaixada alemã em Paris com um revólver na intenção de assassinar o embaixador alemão na França. O estudante polonês, no entanto, acabou vitimando o diplomata Ernst vom Rath. Esse episódio foi utilizado pelos nazistas para reforçar a propaganda antissemita na Alemanha.

Funeral do diplomata alemão Ernst vom Rath, vítima de um ataque realizado por um estudante polonês em Paris.*
Funeral do diplomata alemão Ernst vom Rath, vítima de um ataque realizado por um estudante polonês em Paris.*

Logo após a notícia do atentado espalhar-se, ataques contra judeus foram organizados espontaneamente na Alemanha. O que veio a seguir, porém, foi uma ação coordenada pelo governo nazista que aconteceu em todo o território alemão. Hitler e Goebbels, ministro da propaganda nazista, reuniram-se e decidiram usar o caso para atacar a comunidade judia.

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As ordens de Hitler e de Goebbels para os membros do partido foram diretas e ordenavam que ataques contra os judeus fossem organizados no país. Esses ataques, porém, deveriam acontecer de uma maneira que aparentasse não envolver o governo alemão. A ideia, portanto, era fazer com que o ataque contra os judeus passasse a impressão de ação espontânea da população.

Com essa ordem transmitida, os funcionários do Partido Nazista começaram a entrar em contato com líderes partidários locais e com as tropas de assalto, passando-lhes instruções de como proceder no ataque contra judeus. As instruções incluíam algumas ordens:

  • Não deveriam acontecer pilhagens (saques);

  • Judeus estrangeiros não deveriam ser atacados em hipótese alguma;

  • Lojas judaicas não deveriam ser incendiadas para não danificar propriedades de alemães.

Com as instruções fornecidas, os grupos de nazistas, a maioria vinculada às tropas de assalto (SA), mobilizaram-se e partiram para o ataque contra os judeus. A maior parte dos que participaram da Noite dos Cristais estava sem uniforme, uma vez que o ataque deveria parecer espontâneo, sem nenhuma vinculação com o partido.

Como foi realizada a Noite dos Cristais?

A Noite dos Cristais tinha sido, até aquele momento, o maior ataque organizado pelos nazistas contra os judeus na Alemanha. Apesar de toda a agressão já praticada, a Alemanha ainda não havia presenciado um ataque daquela proporção contra os judeus em todo o país. Os membros do nazismo foram incentivados pelo alto-comando a praticar violência contra os judeus, e a polícia alemã foi instruída a não impedir esses ataques, além de ter sido orientada a prender os judeus.

Muitos dos que participaram do pogrom comemoravam os 15 anos do Putsch da Cervejaria, tentativa de golpe realizada pelos judeus na Baviera em 1923. A escalada da violência foi sem precedentes. Os nazistas atacaram sinagogas, lojas e residências judias por todo o país. Além disso, milhares de pessoas foram agredidas e muitas morreram em decorrência das agressões.

O historiador Richard J. Evans fez um resumo do estrago causado durante o pogrom realizado em 1938|1|:

  • Registraram-se 520 sinagogas destruídas. No entanto, essa quantidade, provavelmente, foi superior a 1000.

  • Entre 7500 e 9000 lojas de judeus foram destruídas.

  • Oficialmente, 91 pessoas morreram durante os ataques, mas o número real de mortos pode ter sido superior a 1000.

  • 30 mil pessoas foram presas e encaminhadas para campos de concentração.

  • Os prejuízos materiais foram calculados em 39 milhões de reichsmarks.

Após o ápice dos ataques, muitos judeus mudaram-se dos locais onde viviam, temerosos que novos ataques acontecessem. Outros ficaram escondidos em suas casas, temendo ser agredidos caso aparecessem nas ruas. Os 30 mil judeus presos foram encaminhados para três campos de concentração: Dachau, Buchenwald, Sachsenhausen. O pogrom foi encerrado por meio de uma ordem emitida por Goebbels em 10 de novembro de 1938.

|1| EVANS, Richard J. Terceiro Reich no poder. São Paulo: Planeta, 2014, p. 656-657.

*Créditos da imagem: Everett Historical e Shutterstock

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