União Ibérica
A União Ibérica estendeu-se de 1580 a 1640 e representou a união das Coroas da Espanha e de Portugal a partir da coroação de Filipe II como rei de Portugal.
Por Daniel Neves Silva
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A União Ibérica é um período da história de Portugal e da colonização do Brasil que aconteceu entre 1580 e 1640. Caracterizou-se pela união das Coroas de Portugal e Espanha como consequência de uma crise dinástica que atingiu Portugal. As posses que pertenciam ao Império Português passaram a ser controladas pelo Império Espanhol.
A União Ibérica teve grandes consequências aqui no Brasil, com destaque para os ataques promovidos pelos holandeses ao Nordeste, mas também pela expansão territorial de colonos por terras espanholas, já que a divisão existente entre os domínios deixou de existir. Encerrou-se em 1640 com a ascensão de d. João IV ao trono de Portugal.
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Resumo sobre a União Ibérica
- A União Ibérica foi a união das coroas espanhola e portuguesa sob comando do mesmo rei que ocorreu entre 1580 e 1640.
- Durante essa união, os espanhóis assumiram o comando do trono português, unificando as coroas.
- Se iniciou como consequência da crise dinástica que atingiu a dinastia de Avis.
- O primeiro rei espanhol a assumir o trono português foi Filipe II da Espanha.
- O Brasil sofreu consequências desse acontecimento, com destaque para as invasões holandeses no Nordeste.
O que foi a União Ibérica?
A União Ibérica foi um período da história no qual as Coroas de Espanha e Portugal se unificaram, sendo que essa unificação se iniciou em 1580 e se estendeu até 1640, quando ocorreu a Restauração Portuguesa. A União Ibérica foi fruto da crise dinástica que se abateu sobre a dinastia de Avis depois que o rei d. Sebastião I desapareceu, em 1578.
Durante a União Ibérica, o Reino de Portugal esteve sob o comando da Espanha, sendo que o primeiro rei espanhol a assumir o controle português foi Filipe II da Espanha, conhecido também como Filipe I de Portugal. Apesar da união e da coroa portuguesa estar sob comando da coroa espanhola, Portugal manteve uma relativa autonomia política.
A União Ibérica teve uma forte influência nos territórios coloniais portugueses, entre eles o Brasil. Uma das principais consequências da União Ibérica no Brasil foram os ataques holandeses, uma vez que Países Baixos e Espanha eram nações inimigas. Além disso, aponta-se que a expansão territorial do Brasil passa por esse acontecimento.
Formação da União Ibérica
A União Ibérica foi iniciada por causa de uma crise dinástica que atingiu Portugal no final do século XVI. Essa crise dinástica começou quando o rei D. Sebastião desapareceu durante a batalha de Alcácer-Quibir, batalha travada entre portugueses e marroquinos em 1578. O corpo do rei português nunca foi encontrado. Assim, supôs-se, na época, que o rei havia morrido.
A morte do rei d. Sebastião colocou a dinastia portuguesa em apuros, pois o rei português não possuía herdeiros diretos, forçando, assim, seu tio-avô, d. Henrique, a assumir o trono de Portugal. Apenas dois anos depois de assumir o trono português, d. Henrique faleceu e, como também não possuía herdeiros diretos, foi iniciada uma crise na dinastia de Avis.
Com a crise de sucessão dinástica de Portugal, surgiram três postulantes ao trono português:
- Antônio, prior de Crato;
- Catarina de Portugal;
- Filipe II, rei da Espanha.
Antônio, prior de Crato, chegou a ser aclamado rei por seus partidários na vila de Santarém, mas acabou sendo derrotado pelas forças de Filipe II durante uma batalha travada em agosto de 1580. Filipe II, além de ser rei espanhol e possuir muito poder, contava com apoio de grande parte da nobreza portuguesa. Assim, conseguiu impor-se contra Antônio, que se manteve resistente à União Ibérica durante muitos anos, buscando até apoio inglês para derrotar os espanhóis.
Com a coroação, Filipe II passou a ser conhecido como Filipe I de Portugal e II da Espanha, acumulando o trono das duas nações. Em 1580, iniciou a União Ibérica. A partir desse momento, todas as possessões portuguesas passaram ao controle dos espanhóis, o que, naturalmente, incluía o Brasil.
Uma vez unificadas as coroas de Portugal e Espanha, a postura dos espanhóis foi marcada pela cautela. A princípio, durante o reinado de Filipe II, a administração dos assuntos de Portugal foram mantidos com os portugueses, uma escolha estratégica para evitar que os portugueses se rebelassem contra o domínio espanhol.
No todo, a Coroa espanhola obteve um apoio considerável da aristocracia portuguesa, sobretudo pelo fato de o rei espanhol ter uma ligação familiar com os últimos reis de Portugal. O rei espanhol seguiu residindo em Madrid, mas manteve Portugal sob a autoridade do Vice-Rei de Portugal, uma pessoa indicada pelos reis espanhóis. Os portugueses, portanto, seguiram administrando o seu país, porém sob a supervisão de um indicado espanhol.
Bandeira da União Ibérica
Não houve uma bandeira específica para a União Ibérica, sendo que as duas nações mantiveram as bandeiras que já utilizavam. A manutenção da bandeira portuguesa foi vista como uma demonstração da cautela espanhola em relação à administração portuguesa no contexto da União Ibérica. A bandeira da Espanha seguiu a mesma, assim como a bandeira de Portugal.
Entretanto, alguns historiadores apontam para o fato de que uma nova bandeira começou a circular em Portugal a partir de 1616, promovendo uma pequena mudança na bandeira portuguesa durante o reinado de D. Sebastião. Essa bandeira era usada sobretudo por embarcações portuguesas. A bandeira em questão era a seguinte:
Fim da União Ibérica
Em 1640, ocorreu a Restauração Portuguesa, movimento que colocou fim à União Ibérica. Durante esse acontecimento, os portugueses engajaram-se na luta para retomar o controle de seus territórios, inclusive das colônias. Foi travada uma guerra que resultou na expulsão dos espanhóis e na coroação de D. João IV, fato que marcou o início da dinastia de Bragança.
A revolta portuguesa foi resultado do declínio das relações entre portugueses e espanhóis, o que se acentuou durante o reinado de Filipe IV da Espanha. Motivos que reforçaram essa insatisfação portuguesa foram o aumento de impostos em Portugal, nomeação de espanhóis para posições de governo em Portugal e outras iniciativas que demonstravam a intenção do rei espanhol de minar a autonomia portuguesa.
Apesar da Restauração Portuguesa ter se iniciado em 1640 com a ascensão de d. João IV ao trono português, a disputa entre portugueses e espanhóis seguiu por quase trinta anos. Diversas batalhas foram travadas e um intenso trabalho diplomático foi realizado por Portugal para conquistar apoio contra os espanhóis. Foi somente em 1668, com o Tratado de Lisboa, que os espanhóis reconheceram a independência portuguesa.
Depois que os portugueses retomaram o controle de seu trono e presenciaram a ascensão da dinastia de Bragança, iniciaram uma luta contra os holandeses para os expulsarem de Pernambuco. Essa luta ficou conhecida como Guerras Brasílicas e concretizou-se em 1654, ano em que os holandeses foram expulsos definitivamente de Pernambuco.
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Consequências da União Ibérica
A União Ibérica gerou grandes consequências para Portugal e seu império, incluindo o Brasil. No caso do Brasil, destaca-se a expansão territorial do país conduzida pelos colonos, além das invasões holandesas que ocorreram no Nordeste brasileiro.
Primeiramente, com a União Ibérica, a divisão imaginária que separava os territórios na América entre portugueses e espanhóis, conhecida como Tratado de Tordesilhas, enfraqueceu-se. Com o enfraquecimento dessa divisão, tanto portugueses como espanhóis tiveram livre acesso a territórios que, até então, não podiam penetrar.
O resultado disso, em longo prazo, foi o povoamento de “territórios espanhóis” por portugueses, como no caso do Rio Grande do Sul. Depois que a União Ibérica se encerrou, uma grande disputa de territórios se estabeleceu com os portugueses reivindicando terras que anteriormente eram espanholas (nos termos do Tratado de Tordesilhas). Isso contribuiu para que um novo acordo territorial fosse estabelecido: o Tratado de Madrid.
O segundo reflexo da União Ibérica no Brasil foram os ataques promovidos pelos holandeses contra o Nordeste do Brasil. Esses ataques foram resultado direto da inimizade que existia entre holandeses e espanhóis, que, naquela época, travavam a Guerra dos Oitenta Anos. Essa guerra era resultado da luta dos holandeses por sua independência.
Antes da União Ibérica, os holandeses possuíam participação na comercialização do açúcar produzido no Brasil. Quando a União Ibérica iniciou-se, e o Brasil passou a ser um domínio espanhol, os holandeses encontraram uma forma de atingir os espanhóis em represália à guerra que estavam travando: atacar o Brasil e tomar o controle da produção e da comercialização do açúcar.
Foi por isso que os holandeses realizaram diversos ataques contra territórios que haviam sido colônias portuguesas. Primeiro, houve ataque contra a costa da África em 1595; alguns anos depois, foram realizados diversos ataques holandeses contra Salvador: houve ataques em 1604, 1624 e 1627.
A última investida holandesa contra o Nordeste brasileiro aconteceu em 1630 quando Olinda e Recife foram atacados pelos holandeses. Esse fato deu início ao domínio holandês sobre Pernambuco. Os holandeses dominaram a região durante 24 anos, ou seja, permaneceram na região de 1630 a 1654.
A administração dessa região passou a ser responsabilidade da Companhia das Índias Ocidentais, que delegou que o território seria administrado pelo alemão Maurício de Nassau. Durante sua regência, Nassau ordenou a reconstrução da região. Foram autorizadas obras públicas, como pontes, e foi incentivada a vinda de artistas e intelectuais para Recife. Além disso, foi promovida a liberdade religiosa em Pernambuco. A regência de Nassau durou até 1644.
No caso de Portugal, a União Ibérica afetou severamente a política externa portuguesa, além de ter gerado consequências significativas para a economia portuguesa, que viu, por exemplo, um de seus principais negócios — o açúcar brasileiro — entrar em decadência.
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Exercícios sobre a União Ibérica
Questão 01
Uma das grandes consequências da União Ibérica para Portugal foram:
a) Transferência da capital de Lisboa para Sevilla
b) Descoberta de ouro em Minas Gerais por exploradores espanhóis
c) Fundação da colônia de Sacramento
d) Invasões holandesas no Nordeste
e) Conquista de Ceuta pelos portugueses
Resposta: Letra D
As invasões holandesas foram um grande reflexo da União Ibérica para Portugal e para o Brasil. Com a política externa prejudicada, os inimigos de Portugal também passaram a ser os inimigos da Espanha. Assim, os Países Baixos passaram a atacar os domínios portugueses como represália a Espanha, sendo que um desses locais foi o Nordeste brasileiro.
Questão 02
O tratado territorial que foi estabelecido no século XVIII, em 1750, como uma consequência direta da União Ibérica foi:
a) Tratado de Tordesilhas
b) Tratado de Lisboa
c) Tratado de Santo Ildefonso
d) Tratado de Madrid
e) Tratado do El Pardo
Resposta: Letra D
O Tratado de Madrid foi um acordo realizado entre Portugal e Espanha para resolver disputas territoriais que ocorriam entre as duas nações na América. Os portugueses alegaram que uma série de territórios pertenciam a eles porque eram eles quem ocupavam as terras, refazendo o mapa do continente americano.
Fontes
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.