Hebreus
Hebreus foram um povo da Antiguidade que se estabeleceu na região de Canaã, atual Palestina. Os hebreus passaram a ser chamados, em diferentes períodos da história, de israelitas e judeus.
Por Daniel Neves Silva
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Os hebreus foram um dos povos da Antiguidade, que habitava a região de Canaã, atualmente conhecida como Palestina. A história hebraica se inicia com a figura de Abraão, o patriarca desse povo. A trajetória histórica dos hebreus é marcada por três grandes períodos:
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Patriarcas;
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Juízes;
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Monarquia.
Durante o domínio romano, os hebreus começaram a abandonar a região em razão da violência praticada contra eles. Ao longo da história, os hebreus passaram a ser reconhecidos por outros nomes: na monarquia, como israelitas; e, no período do domínio romano, passaram a ser chamados de judeus.
Leia também: Dez pragas do Egito — narrativa bíblica sobre o fim da escravidão dos hebreus no Egito
Resumo sobre os hebreus
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Os hebreus foram um povo da Antiguidade, conhecido por habitar a terra de Canaã.
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Os hebreus consideram Abraão o seu patriarca, portanto, eles são descendentes dessa figura.
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O termo “hebreu” foi diretamente utilizado no período que esse povo era nômade.
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Quando se tornaram uma monarquia, o Reino de Israel, os hebreus passaram a ser conhecidos como israelitas, e, posteriormente, como judeus.
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A história hebraica é dividida em três fases: a dos Patriarcas, a dos Juízes e a fase da Monarquia.
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Durante o domínio romano, em 70 d.C., os hebreus, já chamados de judeus, abandonaram a região de Canaã (Judeia), evento chamado de Diáspora.
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A religião dos hebreus é conhecida como judaísmo, na qual teve origem o cristianismo, a maior religião do mundo.
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Os valores da fé judaica influenciaram a fé cristã e se tornaram a base dos valores morais do Ocidente.
Quem eram os hebreus?
Os hebreus eram um povo semita da Antiguidade que ficaram conhecidos por ter sido nômades. Os hebreus têm sua origem traçada com o patriarca Abraão, um pastor seminômade, que iniciou uma grande migração, abandonando a Mesopotâmia em busca de um novo território para se estabelecer. Na tradição hebraica, essa migração foi realizada por uma ordem dada diretamente por Deus.
A história hebraica é marcada por grandes reviravoltas. Esse povo buscou se estabelecer em Canaã, uma terra que já era habitada por uma série de outros povos, mas, após um período vivendo nessa região, os hebreus migraram para o Egito. Os historiadores estimam que isso aconteceu por volta de 1750 a.C.; eles retornaram 500 anos depois. De volta a Canaã, os hebreus tomaram a terra dos diversos povos que habitavam ali e se tornaram uma monarquia, o que fez com que esse povo passasse a ser chamado de israelita. Com o tempo, os israelitas passaram a ser conhecidos como judeus, por causa de uma das tribos fundadas pelos hebreus na região.
Origem e história dos hebreus
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Origem dos hebreus
A história dos hebreus está relacionada com o patriarca Abraão. Esse personagem é apresentado no relato bíblico como um pastor seminômade que vivia na região de Ur, localizada na Mesopotâmia. Abraão teria recebido uma profecia para que abandonasse a região e se estabelecesse em outro lugar, que seria indicado por Deus. Essa migração o levou a Canaã, local que atualmente conhecemos como Palestina.
Em Canaã, os hebreus encontraram terras férteis, no Vale do Rio Jordão, embora muitos tenham se estabelecido em regiões desérticas. O seminomadismo continuou sendo uma prática comum desse povo, e essa fase iniciada por Abraão ficou conhecida como Período dos Patriarcas.
Muitos historiadores, entretanto, entendem que a história de Abraão é um mito de origem. Isso porque, segundo eles, os hebreus provavelmente surgiram no interior da sociedade cananeia.
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Migração dos hebreus para o Egito
Depois de se estabelecerem em Canaã, os hebreus se mudaram para o Egito. Existe uma divergência entre os historiadores sobre se essa migração aconteceu em pequena ou larga escala. De toda forma, acredita-se que isso pode ter ocorrido por volta de 1700 a.C. A motivação dessa migração teria sido a escassez de alimentos em Canaã, enquanto no Egito, havia abundância de terras férteis.
A chegada dos hebreus ao Egito teria coincidido com o período em que a região estava sob domínio dos hicsos, um povo de origem semita, assim como os hebreus. Isso possibilitou que os hebreus se estabelecessem no território egípcio sem problemas, chegando até a ocupar posições de proeminência na administração do Egito. Depois da expulsão dos hicsos, os hebreus teriam sido punidos pela colaboração com os invasores. Os hebreus, escravizados pelos egípcios, conseguiram sua libertação por meio de Moisés, em aproximadamente 1300 a.C.
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Retorno dos hebreus a Canaã
A libertação do Egito e o retorno dos hebreus a Canaã configuram o chamado Êxodo. Os historiadores afirmam que a migração de hebreus do Egito para Canaã aconteceu, embora afirmem que a quantidade de hebreus que migrou não deve ter sido tão grande como sugere a narrativa bíblica. Então podemos dizer que a história do Êxodo realmente ocorreu, mas foi apresentada de forma mitificada na Bíblia.
De toda forma, os hebreus viveram como nômades na península do Sinai e depois procuraram fixar-se em Canaã, mas a região já era ocupada por outros povos, como cananeus e filisteus. A narrativa bíblica fala que os hebreus teriam iniciado uma campanha militar para conquistar a terra, mas os historiadores questionam essa afirmação, afirmando que a infiltração dos hebreus em Canaã foi lenta, e que não existem muitos indícios que apontam uma invasão militar em larga escala.
Outros apontam para o fato de que houve campanha militar, mas que ela não teria sido em larga escala e nem teria resultado na conquista plena da região. Vestígios da fundação de aldeias ao norte de Jerusalém são encarados como indícios da chegada hebraica em Canaã. Nessa fase de sua história, a grande autoridade dos hebreus eram os chefes militares, conhecidos como juízes.
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Monarquia dos hebreus
Após se estabelecerem em Canaã, os hebreus deram início a uma fase de centralização do poder e expansão de suas fronteiras, o que resultou no surgimento da monarquia hebraica. Essa monarquia surgiu por meio de Samuel, o último juiz hebreu, que, no final do século XI a.C., decidiu coroar Saul como rei.
A motivação para isso seria garantir a segurança das terras hebraicas, uma vez que, com o enfraquecimento de grandes reinos (Assíria e Egito), novos povos teriam surgido como potências. Esses povos, como os moabitas, procuravam expandir seus domínios e terras, tornando-se uma ameaça aos hebreus. A monarquia se tornou, então, uma alternativa, pois uma liderança forte poderia garantir a defesa do povo.
A monarquia hebraica teve três grandes reis:
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Saul (1030-1010 a.C.);
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Davi (1010-970 a.C.);
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Salomão (970-930 a.C.).
Essas são datas aproximadas do auge da monarquia hebraica.
O reinado de Saul ficou marcado por algumas conquistas militares, mas ele acabou morrendo em batalha contra os filisteus. O seu sucessor foi Davi, que precisou disputar o poder de Israel com Isboset, filho de Saul. Do reinado de Davi, o grande destaque é a conquista de Jebus, cidade dos jebuseus. Essa cidade tornou-se capital dos hebreus e é conhecida atualmente como Jerusalém.
Por fim, o reinado de Salomão foi um período de prosperidade econômica, que se destacou pela grande obra envolvida na construção do Templo de Jerusalém, um lugar que se tornou sagrado para os hebreus.
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Diáspora dos hebreus
Depois do reinado de Salomão, o Reino de Israel se enfraqueceu. A unidade territorial foi quebrada quando o reino se dividiu em dois: Reino de Judá e Reino de Israel. Esse enfraquecimento permitiu que assírios, caldeus, persas, macedônios e romanos conquistassem a região. Durante o domínio babilônico (caldeus), os hebreus foram escravizados, e o Templo de Jerusalém, destruído, no século VI a.C.
Depois que os hebreus foram libertos da escravidão na Babilônia, o templo foi reconstruído, mas foi novamente destruído, dessa vez pelos romanos em 70 d.C. O domínio romano foi, inclusive, um momento de tensão na história hebraica. As rebeliões contra os romanos foram frequentes e resultaram nas Guerras Romano-Judaicas. A violência romana levou os hebreus a fugirem de suas terras, evento que recebeu o nome de Diáspora.
Veja também: Qual a importância da arca da aliança para os hebreus?
Religião dos hebreus
A religião dos hebreus é conhecida atualmente como judaísmo. É uma religião monoteísta, de origem abraâmica, que estabelece que há apenas um deus: Javé. Uma das bases do judaísmo é a crença hebraica/judaica de que eles são o povo escolhido por Deus. Além disso, acreditam no Dez Mandamentos que, na tradição judaica, foram estabelecidos diretamente por Javé e entregues a Moisés no Monte Sinai.
Além disso, o judaísmo atribui uma grande importância à Torá, os cinco primeiros livros bíblicos, e ao Talmud, que reúne textos fundamentais da fé judaica. Muitos desses textos, obviamente, foram estabelecidos posteriormente ao período nômade do povo.
Na verdade, levando em consideração o rigor histórico, o período nômade da história hebraica foi exatamente o período de formação e consolidação dessa religião monoteísta que atualmente chamamos de judaísmo. Muitos historiadores afirmam que a religião praticada pelos hebreus naquela época era o javismo ou yahwismo, que se concentrava no culto a Javé, e que necessariamente não era uma religião monoteísta, mas monolatrista, pois cultuava apenas a Javé, mas acreditava na existência de outros deuses presentes na região de Canaã.
Cultura dos hebreus
Os hebreus, em sua fase nômade, ou os israelitas, descendentes dos hebreus estabelecidos em Canaã, tinham uma cultura religiosa centrada em Javé, como mencionado, tornando-se monoteísta de fato após o exílio na Babilônia. Algumas tradições importantes da cultura hebraica são:
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a circuncisão dos homens,
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o descanso sabático,
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na alimentação, a carne de porco era evitada.
Diferença entre hebreus e judeus
Hebreus e judeus são termos utilizados para se referir ao mesmo povo, porém, em períodos históricos distintos. A palavra “hebreu” se refere aos hebreus no período em o povo ainda era nômade. Portanto, da migração de Abraão até o retorno desse povo para Canaã, o termo “hebreu” é utilizado.
Na fase da monarquia, os hebreus ficaram conhecidos como israelitas, por causa do Reino de Israel. Já no período que a região estava sob domínio romano, os israelitas passaram a ser chamados de judeus. O termo faz referência ao Reino da Judeia, um reino israelita que foi conquistado pelos romanos em 63 a.C.
Quem escreveu o livro de Hebreus?
O livro de Hebreus é um livro bíblico que causa muita polêmica por conta de sua autoria. Muitos teólogos atribuíram a autoria desse livro a Paulo, autor de inúmeros livros bíblicos, mas não existe uma comprovação histórica disso. Outros pesquisadores apontam que Hebreus não foi escrito por Paulo, sendo que diversos nomes já foram vinculados ao livro, entre eles:
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Barnabé,
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Silas,
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Apolo,
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Lucas e
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Priscila.
Legado dos hebreus
Os hebreus deixaram um enorme legado, sobretudo para a cultura ocidental, uma vez que a maior religião do planeta, o cristianismo, surgiu no interior da fé judaica, religião que se desenvolveu entre os hebreus. A crença monoteísta em Deus é uma enorme influência hebraica, pois a fé cristã se consolidou como a principal religião ocidental. Além disso, uma série de valores morais estabelecidos no judaísmo foram transmitidos para a fé cristã, sendo base para os valores morais ocidentais.
Saiba mais: Israel x Palestina — qual a origem histórica desse conflito?
A Bíblia é uma fonte histórica?
Como dito, os hebreus eram um povo da Antiguidade de caráter seminômade que se estabeleceu na região de Canaã, formando lá um reino para si. Grande parte da trajetória desse povo pode ser encontrada nos textos bíblicos do Antigo Testamento, e isso nos remete ao questionamento se a Bíblia pode ou não ser considerada um documento histórico.
A resposta para esse questionamento é: sim, a Bíblia é uma fonte histórica. No entanto, isso não significa dizer que tudo que consta nesse livro religioso é automaticamente encarado como verdade histórica pelos historiadores. Existe todo um trabalho realizado por eles para se chegar a uma conclusão do que é verdade histórica e do que é narrativa mitificada.
É importante lembrarmos também que a Bíblia não é a única fonte histórica referente à história hebraica. Existem outras fontes, principalmente oriundas de trabalho arqueológico. De toda forma, a opinião vigente é: a Bíblia serve como fonte histórica e possui passagens que abordam eventos históricos, mas muitos deles são mitificados. Por isso, a abordagem e utilização dos textos bíblicos para o estudo da história devem ser feitas com certa cautela.
Créditos das imagens
[1] Lidia Kozenitzky/ Wikimedia Commons
[2] Renata Sedmakova/ Shutterstock
Fontes
ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
MARK, Joshua J. Kingdom of Israel. Disponível em: https://www.worldhistory.org/Kingdom_of_Israel/