O que é a Filosofia?

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Não é possível apresentar uma resposta pronta, definitiva e última para a pergunta sobre a essência da Filosofia.
Não é possível apresentar uma resposta pronta, definitiva e última para a pergunta sobre a essência da Filosofia.

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Por Francisco Porfírio

O que entendemos por Filosofia é um tipo de pensamento organizado, conceitual, crítico e reflexivo. Enquanto conhecimento crítico, esse ramo do saber não aceita como verdadeira qualquer proposição sem antes analisá-la. Já como conhecimento reflexivo, a Filosofia desdobra-se sobre si mesma a fim de criar novos problemas para um melhor entendimento do mundo. É um tipo de pensamento conceitual, pois ela trabalha por meio da formulação e reformulação de conceitos, criando e revisando os significados que nós damos para o mundo.

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Entendendo o conceito de Filosofia

Vários filósofos, de Tales a Foucault, formularam respostas diferentes para a pergunta “o que é a Filosofia?”. Ao tentar responder a essa pergunta, não podemos, simplesmente, apresentar uma síntese de todas essas respostas. Por isso, neste texto, trabalharemos com algumas perspectivas diferentes, deixando claro que o conteúdo aqui expresso não corresponde a uma resposta última e definitiva sobre esse conceito.

De acordo com a definição relativa ao pensamento que se desdobra sobre si mesmo e de maneira conceitual, a Filosofia lida, às vezes, com elementos concretos e, na maioria das vezes, com elementos abstratos. Uma das perguntas mais essenciais dessa área é, justamente, aquela que pergunta pela essência das coisas, ou seja, “o que é?”.

Essa pergunta primordial no trabalho filosófico pode desembocar em outros problemas, como “por que é?” e “como é?”. Isso cria uma espécie de teia de conceitos e de problemas que dão movimento ao trabalho do filósofo, criando, recriando e estabelecendo um plano de conceitos que apresentam os significados do e sobre o mundo.

A Filosofia surgiu no ser humano quando ele saiu de sua zona de conforto e foi capaz de enxergar, enfrentar e problematizar as questões mal resolvidas do mundo, estabelecendo uma atividade desafiadora. Nesse sentido, podemos dizer que ela surgiu em um momento de crise, em que nossa atitude passiva de observador do senso comum ficou em escanteio e nossa atividade e curiosidade tomaram as rédeas do conhecimento.

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Qual é o objeto de estudos da Filosofia?

Não há uma resposta unânime para a pergunta sobre o objeto de estudo da Filosofia na história dessa área de conhecimento. Para os pré-socráticos, o objeto de estudo era o universo e a natureza, estabelecendo o que ficou conhecido como Cosmologia, um estudo primordial que pretendia descobrir qual a origem do universo e de tudo o que existia, sem recorrer aos deuses e a narrativas religiosas e fantasiosas.

De acordo com a teoria de Sócrates, o objeto de estudo da Filosofia seria as questões resultadas da atividade humana no mundo, como a política, o conhecimento e a justiça. Conforme os helênicos, era uma doutrina que deveria buscar a felicidade e o bem viver. Os patrísticos consideravam que a Filosofia deveria estar em consonância com o pensamento cristão, enquanto, para os escolásticos, essa consonância deveria ser mantida, mas os olhares deveriam voltar-se para a observação da natureza.

Os modernos problematizaram as ciências e o modo como o ser humano reflete sobre elas, além de especularem sobre a política de sua época. Os contemporâneos, a partir do século XIX até hoje, utilizaram a Filosofia para pensar questões sobre a sua época, como as implicações éticas sobre a vida, a linguagem, a utilização das tecnologias, o poder político etc.

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Origens da Filosofia

Falando do surgimento da Filosofia no ocidente, podemos remontar a sua origem ao pensador Tales de Mileto, um bem sucedido comerciante da Ásia Menor, que viveu entre 624 e 546 a.C. Em suas viagens, esse filósofo conheceu a astronomia babilônica e a matemática egípcia, de inspiração hindu.

Tales, além de ser o primeiro filósofo, foi também um célebre matemático e astrônomo, tendo localizado a constelação Ursa Menor e previsto a data e o horário de um eclipse solar ocorrido por volta do ano 585 a.C., utilizando apenas a visão e cálculos matemáticos. Porém, alguns historiadores ressaltam a importância do contato dos gregos com o pensamento oriental, afirmando a inseparabilidade entre ambos no período inicial.

Marilena Chaui, professora emérita de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), aposta na tese de que o pensamento oriental anterior e contemporâneo aos gregos deve ser considerado. Ela afirma que

a tese orientalista não é absurda. Como observa o historiador da filosofia Rodolfo Mondolfo, as grandes civilizações orientais mantiveram relações com as civilizações pré-helênicas (egeia, cretense, minoica), e estas, embora derrotadas pelos aqueus e pelos dórios, determinaram formas e conteúdos da vida social, da religião, dos mitos, das artes e técnicas dos gregos homéricos e arcaicos. Heródoto, Aristóteles, Eudemo e Estrabão afirmaram que a geometria e a astronomia eram cultivadas pelos pelos caldeus, egípcios e fenícios; Platão acreditava que o mais antigo e elevado saber encontrava-se com o velho sacerdote do Egitoi.

Isso significa que há uma importância a ser considerada naquilo que pensadores chineses, como Lao Tsé, Confúcio e Mo Tzu fizeram. Também significa que, apesar de os gregos terem criado algo inédito, a sua inspiração apareceu a partir do contato com povos orientais.

Confúcio, um dos antigos sábios chineses, esculpido em pedra.
Confúcio, um dos antigos sábios chineses, esculpido em pedra.

Função da Filosofia

Muitas pessoas perguntam sobre a utilidade da Filosofia, sendo que para as outras ciências e ramos do saber essa pergunta não é frequente. Polêmica e muitas vezes irônica, essa pergunta parece transpassar a ideia de que a essa área é inútil. Em certo sentido e tomando por base o conceito contemporâneo de utilidade, a Filosofia realmente não serve para nada, pois ela não constrói objetos, não cria coisas concretas, não interfere imediatamente no mundo físico e não rende lucro. Assim, ela não tem utilidade.

Segundo Chauiii, costumamos pensar erroneamente que algo que não tem utilidade prática não deve existir. Mas a Filosofia orgulha-se de não fazer parte desse conjunto de ciências práticas que servem apenas de pontes para a evolução das técnicas.

Gilles Deleuze afirma que a Filosofia não é subserviente. Ela não serve de base para as outras ciências e, se em algum momento isso aconteceu, não foi por vontade dela. Esse ramo do saber é autônomo, é crítico, é feito por um pensamento emancipado de outros pensamentos.

a filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formasiii.

A Filosofia é aquele ramo do saber que quanto mais se conhece, mais se fica insatisfeito, já que ela é feita para perturbar, para espantar. A Filosofia não quer gerar conforto, mas quer tirar as pessoas da zona de conforto. É isso que mantém o pensamento em movimento e é isso que gera a evolução intelectual do mundo, mesmo que vagarosamente.

iCHAUI, M. Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Aristóteles. 2 ed., revista e ampliada. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, vol. 1, p. 20.

iiCHAUI, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2005, p. 19.

iiiDELEUZE, G. Nietzsche e a Filosofia. Tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976, p. 87.

*Crédito da imagem: Steve Heap / Shutterstock

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