Estranhas relíquias

As relíquias marcaram uma experiência religiosa peculiar nos tempos medievais, expondo os vários lugares que o sagrado pode ocupar na vida das sociedades ao longo do tempo.
A cabeça de Santa Catarina de Siena: uma das mais curiosas relíquias religiosas da Idade Média

Por Rainer Sousa

Durante a Idade Média, a expansão do cristianismo foi responsável pelo desenvolvimento de várias experiências de fé. No início dessa época, o relato sobre a devoção de vários cristãos inspirava a conversão religiosa de pessoas que tomavam tais histórias como comprovação da verdade cristã. Mais que uma simples narrativa admirável, tais histórias forneciam uma forma de proceder aos fiéis e determinava o aparecimento dos primeiros mártires e santos dessa religião.

Paralela à força desses relatos, os objetos e partes do corpo desses cristãos santificados transformavam-se em alvo de uma fervorosa veneração. Tais relíquias funcionavam como a grande comprovação material de todo o sofrimento e abnegação das personagens que figuravam o universo cristão. Com o passar do tempo, tais objetos sagrados atraíam milhares de peregrinos que, tocados pela apreciação de um item sacro, realizavam doações aos cofres da Igreja.

Do ponto de vista religioso, o contato (mesmo que visual) com a relíquia sagrada significava a garantia do alcance de uma graça ou a proteção espiritual de toda uma vida. Para as igrejas e cidades, a posse de uma relíquia operava como um elemento de proteção e boa sorte. Além disso, a peregrinação dos devotos significava o recolhimento de fartas arrecadações e o desenvolvimento do comércio local. Sem dúvida, uma experiência de crescimento econômico acompanhava tais atos de fé.

Com o tempo, a busca pelas relíquias chegava a organizar rituais de adoração que poderiam ser considerados hoje, bastante bizarros. No século XIV, por exemplo, um relicário contendo uma pequena quantidade do sangue de São Januário passou a se liquefazer de tempos em tempos. A transformação desse sangue, originalmente conservado em estado sólido, chamava a atenção de vários peregrinos devotos a essa antiga santidade do século IV.

Em meados de 1260, a tumba que alojava Santo Antônio de Pádua foi aberta depois de mais de trinta anos de sua morte. Ao examinar os restos mortais do santo, foi constatado que a sua língua permanecia praticamente intacta. Vista como uma prova de sua vida imaculada, a língua foi retirada de seu corpo e até hoje pode ser vista na Basílica de Santo Antônio de Pádua, na Itália.

Em 1083, um grupo de clérigos ordenou que o corpo de Santo Estevão da Hungria fosse desenterrado para que o seu processo de beatificação fosse inaugurado. Mais uma vez, ao observarem as condições gerais do corpo, notaram que a mão dele se encontrava em perfeito estado de conservação. Prontamente, a mão foi extraída para se transformar na mais importante relíquia da Basílica de Santo Estevão, localizada na cidade de Budapeste.

No século XIV, a morte de Santa Catarina de Siena provocou uma tenebrosa disputa pela posse de seu corpo. A solução encontrada foi realizar a extração de seu pé direito, que acabou parando na cidade de Veneza, e da cabeça, que ficou como principal relíquia de sua cidade natal. Atualmente, o resto de seu corpo está depositado na cidade de Roma, capital da Itália.

Se esses casos já se mostram peculiares, não devemos deixar de falar sobre as relíquias relacionadas à vida de Jesus Cristo. A busca por objetos que aparecem em sua biografia bíblica abriu portas para o surgimento de uma mesma relíquia em várias cidades europeias. O sangue de Cristo, o famoso sudário e prepúcio do Messias são alguns dos objetos de adoração e disputa que figuram tal história.

Para os mais críticos, essas situações comprovariam historicamente que os membros da Igreja se valeram de vários estratagemas para chamarem a atenção e os recursos de seus fiéis. Do ponto de vista histórico, consideramos que as relíquias marcaram uma experiência religiosa peculiar aos tempos medievais, expondo os vários lugares que o sagrado pode ocupar na vida das sociedades ao longo do tempo.

Por Rainer Gonçalves Sousa
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